quinta-feira, 26 de março de 2015

A Maldição da Lua Negra - Parte 11




O Capitão Diabo da Tempestade parou de caminhar e ergueu uma das mãos, fazendo sinal para que os demais parassem também. Maia cerrou os olhos de curiosidade, enquanto Ladak mais uma vez estremeceu ao ver o Capitão falar alguma coisa com Neonca. Viraram-se em direção aos dois prisioneiros da ilha, e caminharam em direção a eles novamente.

- Pelos deuses, eles estão voltando, Maia... -sussurou Ladak.

Maia continuou calada, curiosa com o que faria o Capitão voltar. Observou com ansiedade o velho caminhar sobre a areia quente, com os polegares presos sobre o cinto de couro ao lado de uma espada de lâmina fina que reluzia com a luz do sol. Mais uma vez teve a impressão de que Neonca tentava lhe dizer alguma coisa, mas novamente o lenço que cobria seu rosto tirava qualquer possibilidade de Maia perceber sua expressão.


- Eu estava conversando com a tripulação e decidimos dar a você uma escolha... -disse o Capitão com certa ironia. - Você tem comida para sete dias, como eu disse. Mas isso inclui somente uma pessoa. Se ficarem os dois na ilha, em mais ou menos três dias, os dois morrerão de fome.

- A não ser que pesquem, ou cacem... -Neonca acrescentou.

- Podemos assim levar a garota conosco, e os dois vivem... O que acha? -concluiu o Capitão.

- Não! Não podem levá-la! -reclamou Ladak encarando Maia.

- Tudo bem... Então espero que você seja um bom cavalheiro e sobreviva à fome! -disse o Capitão com um sorriso de canto.

- Não podem fazer isso! Isso não estava no acordo! -Ladak contestou irritado.

- Quem é você para dizer o que podemos fazer? -Neonca interrompeu. - Nós somos os termos aqui! Você tem uma escolha a fazer. Faça com sabedoria!

Ladak baixou a cabeça sem esperanças, encarou Maia por alguns segundos, como se um filme passasse em sua cabeça.

- Não tem problema... Morreremos de fome nós dois aqui, se esta for a vontade dos deuses, não é, querido? -Maia se precipitou, tentando parecer o mais frágil e sincera que pudesse.

Ladak arregalou os olhos ao ouvir isso, depois tentou disfarçar. Virou-se para Maia, segurou em seus ombros e disse enquanto olhava em seus olhos:

- Seja forte, querida. Por nós dois...

O Capitão Diabo da Tempestade não conseguiu segurar o riso e disse, ainda procurando o ar que lhe faltava com a gargalhada:

- Levem a garota! Hoje teremos uma diversão a mais no navio!

Maia sentiu completo desprezo por Ladak. Olhou para ele com indignação, e dessa vez era sincero o sentimento! Como ele poderia trocá-la por comida? Como ele poderia ser tão fraco? Que espécie de homem faria isso?

- Não me deixe com esses monstros, Ladak. -ela disse, revirando os olhos com ironia e sarcasmo enquanto ele não via.

- Morreremos de fome, Maia. Sabe-se lá o que mais habita nesta ilha perdida! -Ladak disse com um certo peso. - Sem falar que ficando aqui, ainda existe chances de não dar tempo, e nunca seremos encontrados nesse lugar.

- Ele já fez a escolha. -disse o Capitão. - Levem a negrinha.

Mastro aproximou-se, segurou Maia por um dos braços e a levou até o bote. Ao seu lado, o Capitão se sentou e olhou fundo em seus olhos, enquanto os outros remavam.

- Viu!? Era com isso que você ia se casar! -disse o Capitão. Depois virou-se para Neonca e disse com um certo riso: - Veja, Neonca... Que espécie de esposo larga sua "amada" sozinha com um bando de piratas?

Neonca não respondeu nada. Apenas concordou com a cabeça e continuou remando até o navio. Quando subiram, o Capitão tirou o lenço do rosto, parou em frente a jovem e disse:

- Eu lhe mostrei quem era aquele negro. Agora lhe dou uma escolha: você pode ficar com ele naquela ilha. Logo serão devolvidos à cidade, ou pode seguir conosco, mesmo depois de ter visto nossos rostos. Você deve responder isso agora, Maia.

Maia respirou fundo, e tão certa quanto a brisa do mar que batia levemente em seus cabelos, era sua resposta. Isso era bom... Sempre quando tinha dúvidas, seu coração apertava, e isso nunca havia sido um bom sinal. Quando se casou com Andi, Maia não teve dúvida alguma. Quando recebeu a proposta de Ladak, seu coração se comprimiu de angústia. Mas agora, como um sinal dos deuses, Maia tinha certeza do que queria, e no fundo, uma certa gratidão cresceu.

- Você sabe que eu quero ficar aqui... Nunca tive dúvidas quanto a isso. -ela respondeu.

- A vida no mar não é fácil, garota. Ainda mais quando se recebe o título de pirata. Um pirata só tem dois destinos: o fundo do mar, junto ao Grande Oceano, ou a forca...

- Mas até lá, nós somos livres. -completou Neonca enquanto passava.

- Se esse for o preço pela liberdade, eu pagarei. -disse Maia.

- Então livre-se deste nome. A partir de agora, você é um de nós. -disse o Capitão com um sorriso no rosto enquanto dava dois tapinhas no ombro da jovem Terrrani.

- Seja bem vinda à tripulação do Quebra-Cascos... -disse Neonca sorridente.

***

"Cara irmã, infelizmente não sei se algum dia esta carta chegará até você, mas na saudade de casa, continuo a escrever...
Não posso dizer que estou bem. As feridas do meu coração jamais serão fechadas por completo, mas espero do fundo do meu coração que estejas bem, assim como nossos pais.
Sinto muita falta de nossa infância. Espero que aí na Escola esteja rodeada de pessoas boas que te tratem com carinho.
O mundo aqui é um gigante, imenso como o mar; ele te traga por completo, pois conhece nossas fraquezas. Estou certa de que a Escola de Magia é segura. Só saia daí no dia em que estiver forte, preparada para voltar pra casa e cuidar de nossos pais. Quando fizer isso, orgulhe-os, assim como eu não fiz. Eles merecem...
Eu agora me encontrei no mundo. Estou rodeada de pessoas que me respeitam como eu sou e não se importam com a amargura de meus sentimentos. Descobri uma forma de ser livre, de descobrir o mundo sem sair de casa. Convivo com pessoas como eu e Andi. Ele adoraria estar aqui comigo...
Quando você orar aos deuses, peça para que cuidem dele. Diga que estou com saudades...
Nunca confie em ninguém, nem mesmo em nosso Rei. Confie somente em seu coração, pois até os deuses nos traem as vezes.
Estou agora navegando pelos nove mares. Meu destino é sempre o desconhecido, e minha companhia é Celune. Não temo mais o perigo nem a morte, e minha missão é o tormento dessa lua invejosa.
Se um dia você realmente receber esta carta, não conte nada aos nossos pais. Conforte o coração deles dizendo apenas que estou bem. Fique bem, minha irmã. Mande lembranças à Azuth e ao tio Shar.

Com carinho,
Lua Negra."

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E para ficar inteirado, não deixe de ler as partes anteriores de A Maldição da Lua Negra!

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