terça-feira, 10 de março de 2015

A Maldição da Lua Negra - Parte 10



- Nada de prova, Neonca! Ainda não é hora da prova, saia daqui! -gritou um velho anão de barba farta e castanha enquanto segurava uma colher de pau em uma das mãos e na outra um ramo de folhas verdes e murchas. Vestia-se com um avental encardido, manchado com sangue e restos de comida.



- Não vim por causa da prova ainda, Pé de Pino. Vim lhe trazer uma ajudante. -Neonca disse apresentando a jovem. - Esta é Maia. Está sob encalço do Capitão.



A cozinha do navio não era bem como Maia esperava. Um enorme caldeirão fervia em meio a brasas quentes, tornando o pequeno ambiente abafado e quente, com somente uma janela e a porta, por onde todo o vapor corria tentando escapar. O delicioso cheiro de ensopado contrastava com restos de peixe jogados por cima de uma mesa de madeira, junto com restos de legumes, e com o que agora Maia pode ver que eram algas, e não apenas folhas verdes e murchas. Ao lado da mesa, alguns sacos de batatas, e diversos ramos de temperos presos a parede. Pouco espaço havia para transitar por entre a bagunça daquela cozinha, e apenas alguns minutos lá dentro já foi suficiente para fazer com que a testa de Maia ficasse molhada de suor.



- Eu não preciso de ajuda! -disse o anão virando-se para mexer no caldeirão. - Diga ao velho cão do mar que eu estou bem aqui sozinho!



- Só por hoje, Pé de Pino... -Neonca pediu mansamente. - Facilite o trabalho de seu companheiro aqui. Estou cheio de tarefas a cumprir e ela é tudo que me impede.



- Arrr! -resmungou o velho anão virando-se para Neonca. - Seu mestiço bastardo dos mares! Deixe a garota aqui e vá lá cheirar o traseiro daquele velho rabugento. Eu fico com a negrinha, mas ela deve me obedecer!



- Ela é toda sua! Estará sob seu comando! -disse Neonca sorrindo para Maia.



- Acho bom! O Capitão pode até mandar no Quebra-Cascos e nesse bando de infelizes, mas na cozinha mando eu! Eu sou o Capitão por aqui! -disse apontando a colher suja para a jovem que escutava tudo enquanto concordava com a cabeça. - Primeira regra: não coloque sua colher onde não é chamada, menina! O caldeirão é MEU, por isso nunca mexa nele sem que EU ordene. Entendeu?



Maia assustada fez que sim com a cabeça. Neonca riu e saiu andando. Maia o seguiu com os olhos até o quanto pôde, mas Pé de Pino continuou, atraindo novamente a atenção da garota:



- Entre! Está esperando o que? As cebolas não se cortarão sozinhas!



Maia passou a manhã toda cortando cebolas, nabos, batatas... O ensopado não se resumia só a peixe: haviam vários outros animais marinhos que eram pescados, limpos e cozidos bem fresquinhos. Maia entendeu que o trabalho de Pé de Pino ia muito além de simplesmente cozinhar: o cozinheiro do navio era alguém respeitado, era quem administrava grande parte dos suprimentos, estando sempre pronto e disposto a preparar pratos na quantidade certa, e com qualquer alimento que o oceano pudesse lhe oferecer. Isso era muito importante, pois com o tempo, as cebolas estragariam, as cenouras ficariam murchas e enrugadas, e tudo que restaria eram frutos do mar e algumas qualidades de vegetação marinha que era possível obter em alto mar. Pé de Pino era capaz de cozinhar com prazer e excelência qualquer coisa. Dizia o tempo todo que tudo ali podia ser aproveitado, e que desperdícios não seriam tolerados. Ao meio dia anunciou:



- É hora da prova! Avise um por um, e só depois terá sua parte.



- Certo! Aviso ao Capitão também? -Maia perguntou.



- Neonca sempre busca a prova do Capitão. Não se preocupe. -disse servindo uma tigela de madeira com o ensopado. - Depois volte para me ajudar a servir o resto! Esses mortos de fome se parecem com animais famintos e desesperados quando vem buscar sua prova!



Maia pegou uma das tigelas cheias e disse:



- Eu levo para o Capitão.



Maia sabia que para continuar ali precisaria da confiança do Capitão, e para isso, nada melhor do que mostrar que seus insultos não a ofendiam, e que estava disposta a continuar a bordo. Antes de anunciar a hora da prova, subiu até o deck, encarou o velho que segurava o timão e disse entregando a tigela:



- Aqui está sua prova, Capitão.



- Porque me trouxe isso? -disse olhando para o ensopado com desdém.



- Quis poupar Neonca... Estou ajudando Pé de Pino na cozinha, e lhe trouxe a prova de antemão.  -se explicou.



- Ninguém aqui é melhor do que ninguém, garota. Você está muito mal acostumada com esses modos de negros. Não é porque eu sou o Capitão, que devo comer antes dos outros. -disse olhando nos olhos de Maia enquanto pegava a tigela. - Vá avisar aos outros! E amanhã quero que Neonca traga minha prova. Não pense que fará alguma diferença aqui, nem vai se sobressair porque nasceu com a pele escura.



Maia engoliu seco. Percebeu que a cada conversa ficava mais distante a imagem do velho bêbado Senargh. Baixou a cabeça e desceu as escadas. De longe Neonca a observava, mas não fez sinal algum, nem disse nada.



- Hora da prova. -ela disse sem esperar uma resposta.



Depois caminhou até o convés, e assim por todas as partes do navio, avisando a todos, que recebiam a notícia com animação. Menos Inroléu, que nada disse, apenas continuava a encarando com raiva. Depois Maia voltou para a cozinha e ajudou Pé de Pino a servir e distribuir a tigela a todos que aos poucos vinham famintos e animados.



- Nós somos sempre os últimos a comer. -disse o anão. - Nós somos os mais tentados aqui neste navio. -disse sorrindo. - Passamos a manhã inteira preparando a comida, sentindo seu cheiro, mas devemos sempre comer por último. Se faltar, a culpa é nossa, portanto aprendemos a lição.



Maia ouvia tudo atentamente. Seu estômago projetava sons, como se pudesse falar.



- Mas não se preocupe. Pé de Pino aqui nunca deixa faltar! -disse com um sorriso largo enquanto entregava a última tigela a elfa que chegara atrasada para o almoço.



- O Capitão não gostou quando lhe entreguei a primeira prova. -Maia disse enquanto se servia.



Pé de Pino serviu a própria tigela, puxou uma cadeira e se sentou. Maia fez o mesmo e começou a comer. Embora a comida tivesse uma textura diferente do que estava acostumada, teve certeza que estava provando do melhor sabor que já passaria por sua boca. Encheu novamente a colher com o caldo, e sorriu para o anão com satisfação.



- Todos aqui tem seu trabalho, garota. Todos aqui temos nosso lugar. O meu é na cozinha. Nem sempre foi, mas agora é. -ele disse com a boca cheia.



- E onde era seu lugar antes daqui? -Maia perguntou interessada.



- No deck, fazendo o trabalho pesado junto com os outros. Levantando velas, defendendo o Quebra-Cascos e atacando os outros. Eu era bom combatente aqui. Um dos melhores do Capitão! Mas quando perdi a perna, resolvi ser útil aqui dentro. -disse esticando a perna de pau enquanto dava batidinhas com ela no chão de madeira. - Mas veja você: eu sou bom em qualquer coisa! Sou tão bom cozinheiro quanto guerreiro. Isso que faz de você útil de verdade!



Maia escutava tudo atentamente.



- O Capitão é o melhor que já vi! Ele parece ser durão, mas tem o coração tão mole quanto o interior de uma ostra. -disse enquanto limpava o caldo que escorria pela barba.



- Ele parece outra pessoa. Convivi com ele por dias, e agora é como se eu não o conhecesse mais. -Maia disse cabisbaixa. - Conversávamos o dia inteiro sobre o tempo em que os piratas eram mais ativos, sobre o mar... Confesso que sinto falta de Senargh.



- Senargh? Hahaha! -riu. -  Esse Capitão... -suspirou levantando-se da cadeira. - Acho que ele gosta de você!



- Não é bem isso que parece! -Maia respondeu indignada.



- Olha, garota: todo mundo aqui tem uma história, um passado. O velho Capitão não é diferente. Aquilo que você conheceu lá trás não é o Capitão. Se quiser gostar dele, terá que gostar do Capitão Diabo da Tempestade, não Sena-lá-o-que! Você está a bordo do Capitão mais conhecido, mais temido, mais afamado. Acha que é fácil assim permanecer aqui?



- Não... -ela concluiu com a cabeça ainda baixa, olhando para o interior da tigela.



- Então não se iluda, e se quiser continuar com a cabeça sob o pescoço, é melhor mostrar que merece isso. Comece recolhendo as tigelas, nosso trabalho mal começou! Precisamos lavar tudo e deixar a cozinha em ordem, se quisermos jantar hoje. A não ser que queira comer como um porco no meio da sujeira e depois cagar feito um pato com diarreia!



Maia passou o resto do dia limpando, enquanto Pé de Pino, sentado dava ordens e contava um pouco sobre cada um dos que habitavam o navio. "Não que eu goste de fofocas...", ele sempre dizia antes de contar algo, depois soltava a língua a falar e expressar suas opiniões sobre a vida e o passado dos outros.



Quando falou sobre Werdty, Maia lembrou-se de Valsha, e por alguns instantes sentiu saudades de casa. O velho careca era uma espécie de ex-clérigo, e agora capelão do navio. Era ele quem encaminhava os mortos aos seus deuses, pedindo a cada um deles abrigo em seus paraísos, fazendo com que os deuses o poupassem de suas culpas e seus mau feitos em vida.



Onde agora estaria Valsha? Será que ela se lembrava com frequência de sua infância, assim como Maia lembrava agora? Sentia saudades? Será que ela soube de Andi e de sua recente partida? Maia sentia que não... A Escola de Magia deveria estar consumindo Valsha com lições e tarefas que provavelmente a impediam até de respirar. Mas a noite, lá no fundo, quando Valsha deitava a cabeça em seu travesseiro e fechava os olhos, será que por alguns segundos antes de pegar no sono ela em algum momento lembrava de quando eram crianças e brincavam juntas? Será que ela ainda se recordava da bomba de fedor que estragou a festa de Celune? Será que Maia ainda era sua melhor amiga?



- Onde está com a cabeça, menina? -Pé de Pino perguntou, livrando-a de seus pensamentos. - Não está ouvindo? Terra à vista!



Maia arregalou os olhos com ansiedade e correu para o deck do navio. Ao longe pode ver uma pequena ilha, minúscula talvez pela distância em que estavam. Ao se aproximarem, viu que a ilha não era assim tão diferente do que imaginava, sendo realmente pequena. Depois de alguns metros de areia, podia-se ver alguns coqueiros e depois algumas árvores. O navio ancorou longe da ilha e aos poucos todos foram se movimentando para a descida de dois botes.



- Quem quer por os pés na areia? -perguntava Neonca sorridente.



- Sem brincadeiras, Neonca. Ainda estamos trabalhando... -alertou o gnomo bardo.



- Deixe de ser chato, Hudgurd! Estamos com a faca e o queijo nas mãos... -respondeu Neonca enquanto dava alguns tapinhas nas costas do pequeno. - Ladak é nosso, e o dinheiro dele também!



- O negro sim, mas e a garota? -disse Hudgurd dando as costas e deixando Neonca sozinho.



- Vamos, garota! -disse o Capitão aproximando-se de Maia.



- Tripulação descendo! -gritava Neonca. - Preparem-se.



Maia não fez perguntas. Neonca a ajudou a embarcar em um dos botes, junto de Mastro. No outro bote, enquanto remavam em direção a ilha, ela viu o Capitão, Quebra-Ossos e Rasgo-Lâmina, o homem de preto que sempre ficava parado no navio, fazendo a escolta do Capitão. Todos de rostos cobertos por um lenço. Junto, carregavam Ladak, que parecia apavorado.



Maia estava intrigada. Não com o que poderiam fazer com ela naquela ilha, mas com seu destino em si. Ela odiava tomar decisões, mas odiava ainda mais quando as decisões não dependiam dela. Seu destino estava agora nas mãos de Senargh, ou melhor: Capitão Diabo da Tempestade, e talvez fosse isso que a deixava mais vulnerável, pois ela não sabia o que esperar dele. Ela só sentia que confiava nele. Talvez por admiração, talvez por não ter escolhas...



Quando chegaram em terra firme, Neonca a ajudou a descer com gentileza. Maia respirou fundo, e afundou seus pés na areia, como se estivesse se certificando de que estava em terra firme. Ainda podia sentir o balanço do mar envolvendo seu corpo, mas logo a sensação passou sem que ela percebesse.



Ao longe, na ilha, havia uma barraca velha e desgastada ainda em pé, com alguns entulhos e madeira ao redor. O sol brilhava forte, e quando olhou para o horizonte, percebeu que a ilha era pequena o suficiente para ser atravessada de um lado ao outro em menos de um dia andando. Ao longe ela podia escutar as vozes dos homens que trabalhavam no navio, e logo depois os pedidos de socorro, que vinham de Ladak implorando por sua vida.



Quando desceram, não demoraram a tirar as amarras dos braços de Ladak, deixando-o solto na ilha. Ele caminhou apressado em direção à Maia, como se ela pudesse protegê-lo de algo, e tudo que ela sentiu foi repúdio por sua fraqueza.



- Estou enviando à sua família a carta que você escreveu. Eles tem sete dias para deixar o ouro que pedimos no ponto marcado, assim como você tem sete dias de comida e água armazenada aí. Se não cumprirem o prazo, você morrerá de fome e sede. Se tentarem algo contra nós, você morrerá de fome e sede, pois nunca te encontrarão aqui. Esse é nosso melhor acordo, estou certo? -disse o Capitão com bastante calma.



- Certo... -disse Ladak com a voz trêmula. - Mas como vamos sair daqui, senhor Capitão?



- Se a sua família cooperar, se der tempo de você ainda estar vivo, enviarei um bote.



Ladak concordou com a cabeça, e o Capitão deu as costas, em direção ao bote, deixando Ladak e Maia para trás.



A jovem sentiu uma extrema vontade de gritar, pedir ou implorar para não ser deixada na ilha, mas implorar não fazia seu tipo. Ela preferia sofrer à ter que implorar por qualquer coisa, mesmo que fosse para ficar junto dos piratas mais temidos do continente.



Encarou Ladak com repúdio, respirou fundo com ódio, e assistiu o Capitão caminhar em direção ao bote. Neonca a encarou, mas ela não soube decifrar sua expressão, pois o lenço cobria qualquer feição de seu rosto.



- Finalmente, Maia... Ao menos assim estaremos longe desse bando de criminosos... -suspirou Ladak aliviado. - Fizeram muito mal a você? -ele disse tentando pegar em sua mão com cuidado.



Maia livrou-se do toque de Ladak bruscamente, e ainda olhando a tripulação ir, concluiu que nada podia ser pior.
***

Continua...


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E para ficar por dentro desta série, não deixe de ler as partes anteriores de A Maldição da Lua Negra!

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