sábado, 10 de janeiro de 2015

Diálogo entre dois andarilhos.

  Santhea e eu nascemos numa aldeia perto daqui, ficava bem próxima a muralha. A aldeia Ridry talvez você conheça, hoje em dia ela não existe mais, não que eu saiba pelo menos.
 Ela foi atacada por  magos de Zolkan a anos atras, naquele dia perdemos muitas... perdemos muita coisa, e tivemos de migrar pra Mercantia. Foi um caminho bastante conturbado, atravessamos a floresta e caminhamos por dias, com todos aqueles que conseguiram sobreviver, havia muitos idosos e crianças, incluindo Santhea que na época não passava dos 12 anos.
Então fomos emboscados enquanto nos aproximávamos de Mercantia, por soldados de Zolkan, eu não lembro bem do que aconteceu a seguir, meu primeiro impulso foi esconder a Santhea das flechas que vinham de todos os lados, a única coisa que eu via eram os corpos caindo ao meu lado, enquanto a segurava.

 Poucos restaram, e nenhum de nós iria sobrar se não fosse por eles... Os protetores da estrada. É por causa deles que estamos aqui. Nós duas havíamos perdido tudo, e eu não sabia como ia ser daqui pra frente, nunca tinha saído de casa e agora tinha uma criança comigo. Sempre cuidei de minha mãe, mas era diferente. Se não fosse por eles, eu nem quero imaginar o que seria de nós. Em pouco tempo entramos no seu grupo, a Santhea como aprendiz do Frenan se tornou uma eximia guerreira, e eu me dediquei a medicina combinada com a minha botânica, minha mentora se chamava Nasfia, ela já não esta entre nós, mas era a melhor pessoa do mundo. Você gostaria dela, todos gostavam.

 A primeira coisa que nos falaram foi o mesmo que foi dito a você. Sobre esquecer nosso passado, e que de agora em diante seriamos outras pessoas e viveríamos uma nova vida.

Mas não tem como esquecer, eu mesma me recuso a isso, embora nunca tenha exposto a ninguém. Os outros parecem não ter problemas com isso, mas no fundo acho que se importam, pelos menos os mais velhos. Quando a Santhea e o Tordon entraram no grupo eram apenas crianças, então talvez pra eles seja mais fácil. Mas eu não, eu era só um pouco mais nova que você agora. E apesar de nós duas termos sido criadas próximas, tínhamos historias opostas uma da outra, ela só teve a mãe. Eu tive, bom... eu tenho irmãos que foram pra guerra quando eu tinha 7 anos e ate hoje nem sei se estão vivos ou mortos, todos meus amigos estão nesta maldita guerra e minha mãe pereceu por causa dela também. Eu tive toda uma vida antes desse grupo, e apesar das dificuldades não era ruim, eu tive tudo e eu me lembro de tudo. Fica muito fácil esquecer o passado, quando se é um órfão sem família e futuro como eles eram.
  Nós não nos envolvemos em guerra, vivemos o presente deixando de lado o passado. É um de nossos lemas, mas eu penso neles todos os dias...  Acredito que não podemos esquecer das nossas origens.

Quanto ao incidente com os meliantes de antes, quero dizer que entendo sua reação e não lhe julgo, até porque eu queria fazer o mesmo, duvido muito que matariam aquela garota. Mas não há espaço pra dúvidas ou incertezas quando se tem vidas em jogo. Vou te dar um conselho que gostaria que tivessem me dado, ponha em sua cabeça, protegemos pessoas! Podemos perder nossas armas, suprimentos e até não sair vitoriosos de todas as batalhas. Mas nada disso importa desde que cumpramos nosso objetivo. Se eles estão vivos e bem, então tudo está bem. Não deixe seu orgulho falar mais alto. Não somos heróis e nem merecemos tal titulo, somos apenas andarilhos que coincidentemente lutam bem. Fazemos o que qualquer um devia e tem capacidade de fazer.


 Quando eu entrei logo imaginei que a gente poderia mudar o mundo, acabar com a guerra, que seriamos quase super heróis, tinha tanta expectativa, e quando eu via homens, crianças... morrendo na minha frente, quando via toda injustiça e maldade sendo feita e não tinha o que fazer, me sentia tão inútil e incapaz. Levou anos pra perceber que salvamos pessoas, e não o mundo. Isso é impossível. E nós fazemos apenas o possível, não há como punir todo o mal e nem como salvar toda a vida. Se conforme desde cedo meu amigo.


 Você pode estar estranhando tudo agora, mas com o tempo você se acostuma, ou talvez não. Ser do protetorado da estrada é um estilo de vida. Só basta você estar preparado para abraça-la. Ela pode ser muito divertida e gratificante vista de fora. Mas exige muito sacrifício também. Ela nunca será a mesma de uma pessoa normal, você precisa se doar por inteiro.

 As vezes eu penso, eu já estou com 25 anos, e nunca conheci ninguém e mesmo se eu venha a conhecer não vai dar em nada porque não nos fixamos em cidades. Eu tenho 25 e ainda não tenho meu próprio laboratório. Eu tenho muitos planos pro futuro, planos que talvez nunca se realizem, planos que eu nem devia fazer. E tantas perguntas, tantas duvidas.
Eu amo todos eles, mas eles não são minha família. Eu já tenho uma, mesmo não sabendo se esta viva continua sendo a minha família, e quero fazer uma também, um dia. Eu amo o que faço aqui. Mas para ser honesta só continuo pela Santhea, ela não teve irmãos, nem pai e sua mãe a deixou muito cedo. Esta aqui é sua família, toda essa admiração pelo Frenan é pra suprir o que ela não teve na infância ele é seu pai, ela e o Tordon são irmãos. Eu já não vejo ele como um irmão e nenhum deles como pai. Mas não deixam de serem especiais para mim.

 Na verdade sou eternamente grata por eles, não por me salvarem, mas por tudo que fizeram pela Santhea. Quando a mãe dela se foi me fez jurar que cuidaria dela, eu venho fazendo isso a quase 15 anos, eu segurei ela no colo, vi ela crescer e posso garantir, ela era uma criança ruim. E olha pra ela hoje. Eu não conseguiria sem eles. Eles não ensinaram a ela apenas a usar uma espada, ensinaram valores e fizeram dela uma pessoa honesta e integra, e não há o que pague isso. Além do mais ela parece ter nascido pra isso, pode chamar de lavagem cerebral ou o que quiser, mas ela ta feliz com isso e se tornou uma pessoa de bem, o que mais eu posso querer?


 É só eu que não to pronta pra largar dela.








Um comentário:

  1. Gente... Santhea nunca foi uma menina ruim!

    Ela era um amor!

    <3

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