domingo, 18 de janeiro de 2015

A Maldição da Lua Negra - Parte 8



- Porque está me olhando assim? -Maia perguntou com estranheza.



- Eu? -perguntou Andi surpreso, depois de ter sido desperto de seus pensamentos repentinamente. - Eu nem estava te olhando...



- Estava sim... Pensava no que? -perguntou Maia encolhida de frio com as roupas de baixo molhadas. Era comum em Zolkan que homens e mulheres, por debaixo de suas roupas usassem roupas íntimas, cobrindo os seios e as genitais. Mais comum ainda era a normalidade em aparecer assim em público. Em festas todos acabavam assim: os homens e mulheres vestidos apenas com tangas e lenços cobrindo os seios, enquanto dançavam em frente aos bardos.



- Em nada de importante... -ele respondeu tranquilo com uma evasiva, desviando o olhar da jovem menina.



Maia deitou-se no chão macio a beira do rio, que ficava a poucos metros da fogueira e da barraca que haviam feito junto com Wee, Azirráh e os outros para passar a noite. O sol já havia ido dormir, mas não fazia frio. O vento batia de leve, fazendo um som agradável ao movimentar delicadamente as folhas das árvores, trazendo o perfume doce das flores que beiravam o rio que corria lentamente sobre pequenas pedras. As duas luas e estrelas brilhavam como nunca, iluminando a relva em uma luz prata. Cachorro aproximou-se do menino, e deitou também, encostando a cabeça nas pernas do jovem que estava sentado com as duas mãos apoiadas na grama do chão ao lado da menina.




- Vai dormir aí? -Andi perguntou quando a viu deitada.



Maia continuava olhando para o céu, sem responder nada. Ficou assim por alguns minutos, até que, impaciente com o silêncio da menina ele se levantou, bateu a grama grudada em seu corpo com as mãos e disse:



- Vamos voltar para a fogueira. Você está molhada, não deve dormir assim...



- Já parou pra pensar que essa estrela que eu vejo é o lugar mais próximo e mais longe de casa? -ela finalmente disse.



- Como assim? -ele perguntou sem entender.



- Eu posso vê-la, ela me vê. Mas está tão lá no alto, que ela vê também a casa de papai e mamãe. Se nesse momento papai ou mamãe olhar para ela, então estaremos juntos, olhando a mesma estrela, como se estivéssemos perto um do outro.



Andi, pensativo com o que acabara de escutar olhou para o céu, sentou-se novamente ao lado de Maia, esperando que ela continuasse o raciocínio. Mas a menina continuava calada, encarando o céu. Até que ele entendeu o que estava acontecendo e perguntou, mesmo já sabendo a resposta:



- Está com saudade deles, não é mesmo?



- Devem estar preocupados conosco. Talvez pensem que estamos mortos. Já faz mais de um ano que saímos de casa... Fico pensando que mamãe chora a noite, e papai sente culpa de ter permitido essa viajem. Mamãe deve culpá-lo, e meus tios também. -Maia disse, sem desviar o olhar da estrela que encarava.



- Ficarão contentes quando nós voltarmos juntos, cheios de honras e histórias pra contar. Talvez meu pai queira me dar uma surra, mas pra mim vale o preço. -ele disse sorrindo. - Pense pelo seguinte lado: de castigo não ficamos mais, somos casados!



- Pensa no seu pai, Andi?



- Não muito... Meu pai ás vezes ficava tanto tempo fora de casa, que acabei me acostumando a sua ausência.



- E você tem Azirráh aqui... É bom que ele veio junto. -ela disse, ainda olhando para o céu.



- É... -ele concordou. - E tenho você... -disse baixinho, olhando para o chão.



Maia continuou olhando para o céu, sem responder nada. Mas sorriu contente ao ouvir isso, esquecendo da estrela que mirava, satisfeita. Não ousou encarar Andi para que ele não ficasse constrangido com o que acabara de dizer, mas para ela, sua noite estava completa.



- Quero dizer... Você está aqui, nosso plano deu certo! Era isso que queríamos, não era? -continuou, procurando as palavras certas para concertar o que havia acabado de dizer. - E você é minha melhor amiga e Azirráh meu irmão, então eu estou bem!



- É... Conseguimos mesmo. -ela respondeu, ainda sorrindo orgulhosa.



- Mais um mergulho antes de voltarmos? -Andi sugeriu levantando-se novamente em um pulo. Ele sabia que tinha falado demais, mas mesmo que fosse tarde demais para reinteirar, não se importava com isso.



- Vamos voltar, estou com fome... -ela disse ao se levantar.



- Sou chata, estou com fome... - Andi disse afinando a voz com uma careta de deboche. Aproveitando que a menina ainda estava perto e com pouco equilíbrio por ter recém levantado, Andi se precipitou sobre Maia, ergueu ela nos braços e jogou ela no rio. A menina deu um grito antes de cair na água. Andi gargalhou, e pulou junto na água.



- Andi, seu idiota! -ela disse, dando-lhe tapas nos braços.



Andi ria sem parar. Ele adorava deixá-la irritada. Na verdade, para Maia, se Andi tinha um dom, era o de deixar as pessoas irritadas. Ele passava horas provocando qualquer um que se importasse com deboches, e Maia gostava disso, a não ser quando ela era a vítma. Enquanto ainda esbravejava, só por mero costume de brigar com ele, ele aproximou-se dela sorrindo.



- Não se aproxime de mim, Andi Anjhí, ou vou te afogar aqui! -ela disse sorrindo enquanto se afastava do menino, jogando água em seu rosto.



Mas Andi não parou. Ele chegou bem perto de Maia, que sem saber o que o garoto ia fazer, parou de rir e de brincar. Andi ficou sério e pensativo, e depois de segurar seus ombros delicadamente com as mãos, aproximou ainda mais o rosto do dela, tão perto, que ela pode sentir em seu rosto a respiração do menino, que a encarava profundamente, olhando dentro de seus olhos. Maia não conseguia pensar em nem mais um insulto. Novamente ela sentiu aquele frio na barriga, e seu coração acelerou. Fechou os olhos lentamente, e esperou. Mas ele nada fez.



- Vamos logo, sua sem graça, ou Azirráh comerá todo o coelho e ficaremos com fome. - ele disse, como se nada tivesse acontecido.



Demorou alguns segundos até que Maia voltou a si. Suas pernas tremiam de nervosismo mas ela preferia pensar que era somente o frio. Andi a ajudou a sair do rio, e os dois foram juntos até a fogueira finalmente comer junto dos outros, como se nada tivesse acontecido ali.



***



- Ande! Depressa!



- As cordas! Desfaça os nós, seu imbecil!



- Estão todos aqui?



- Sim, senhor capitão!



- A garota está acordando, capitão.



Maia, ainda tonta, sentiu alguém se aproximar. Embora soubesse que estava correndo perigo, em momento algum sentiu medo. Alguém encostou em sua cabeça, e lhe tirou a venda dos olhos. Estava em um navio diferente, maior. Ao seu lado estava Ladak, ainda desacordado, com uma venda nos olhos e com amarras nas mãos, assim como as dela. Ainda era noite, e pode ver alguns homens, correndo de um lado para o outro, atarefados, gritando uns com os outros, sujos, mal encarados. Em sua frente, abaixado tinha um homem. Não era negro, mas bem moreno, pelo que podia perceber com a claridade das luas. Esse vestia roupas boas, embora encardidas. Tinha um lenço negro na cabeça, e não parecia ter mais de vinte e poucos anos. Parecia calmo, mas não sorria nem esboçava emoção alguma.



- Suas mãos... Deixe-me tirar essas amarras. -disse o homem. Tentou lembrar se o tinha visto no navio, mas certamente nunca o tinha visto antes. Com gentileza ele desfez as amarras das mãos da menina, e levantou-se sem dizer mais nada.



- Onde eu estou? -ela perguntou, mesmo que já imaginasse a resposta.



- Num navio pirata, senhorita. -respondeu o moço moreno.



- Senhora. -ela corrigiu, olhando para Ladak. - O que vão fazer comigo? -disse tranquila.



- Isso só o capitão pode dizer... Mas não se preocupe com isso agora.



- Meu diário! -ela disse lembrando-se do que acabara de perder. O homem não disse nada, e saiu de perto, deixando Maia onde estava.



O diário... Agora sim ela sentia-se preocupada e triste, havia perdido o que tinha de mais valioso. Depois lembrou de suas adagas, e viu que não estava mais com elas. O cobertor... tudo!



Levantou-se depressa e caminhou até a beira do navio. Ao longe ainda podia ver o outro navio em chamas, e por um segundo, foi como se ela tivesse perdido parte de si novamente. Não pelo navio, mas por seus pertences que nele haviam ficado.



Mas tinha algo que Maia não entendia: se ela havia sido capturada por piratas, o que ela fazia ali solta? Isso não fazia o menor sentido. Saiu da beira do navio, olhou ao redor, procurando pelo homem negro que ela havia conversado minutos antes. Mas o que ela encontrou foi Senargh, agora completamente diferente do que ela estava acostumada a ver. Ele vestia-se como um pirata, e estava em frente ao timão, dirigindo o navio.



- Maldito Senargh! -ela disse baixinho, com um certo orgulho.



Senargh olhou para ela lá de cima sem esboçar sentimento algum, e desceu as escadas, em direção a menina, deixando o timão com outro homem, que estava ao seu lado.



- Eu sabia!-ela disse a ele com orgulho e satisfação quando se aproximou.



Senargh estendeu a mão, e entregou a menina o diário. Ela sorriu grata, mas ele não retribuiu o sorriso. O velho agora parecia mais mal encarado, mais fechado. Andava com o peito estufado, os ombros levantados em boa postura, com certa superioridade e majestoso...



- Não confie em mim, Maia Terrrani. Eu te avisei, negra. -ele disse com certo desprezo pela menina. - Agora saia de perto de mim. Já fiquei tempo demais perto de negros mesquinhos.



Aquilo soou como um soco no estômago da jovem, que sentiu-se imensamente decepcionada com o tratamento de Senargh, que ela tanto tinha se apegado. Maia pegou o diário, e olhando para o chão, triste, agradeceu.



- Mastro! Leve essa negra daqui. -ele gritou enquanto subia novamente as escadas para retomar seu posto.



Ao longe, Maia pode ver um orc se aproximando. Parecia ter um pouco mais de dois metros, era forte, robusto, e por um instante, ela pensou em pular do navio para fugir.



- A senhorita pode vir com Mastro.  -ele disse com educação em uma voz quase que gutural com certa gentileza, que fez com que Maia arregalasse os olhos desconfiada do que acabara de ouvir.



- Senhora... -ela corrigiu com receio.



- Desculpa Mastro... Vem com Mastro, que Mastro vai levar pro quartinho. -ele disse segurando firme no braço da jovem, que arregalou ainda mais os olhos, com medo do que aquilo significava.



Maia não fez resistência, e se deixou ser guiada pelo orc, ainda com espanto e medo de tal criatura, que além de ser muito temida por todo continente, era rara de ser vista, ainda mais entre humanos.



- Não ficar triste com capitão. Capitão não é mal... -disse a criatura enquanto se aproximava de uma porta do que parecia ser um depósito. Quando chegou, ele soltou Maia, e a encarou sem graça. - Olha lá, senhorita! -disse apontando para o céu. - É um coelho voador!



Maia sem entender nada continuou olhando assustada para o orc. Talvez, se ele a tivesse chamado de senhora, ela teria olhado, mas o tempo que ela demorou até pensar em corrigir o orc, a fez perceber tamanho absurdo do que ele dizia, percebendo que o orc tentava enganá-la.



- A senhorita tem que olhar... -ele disse frustrado. - Se a senhorita não olhar, Mastro não poder te bater na senhorita.



- Senhora! -ela disse corrigindo. - E porque você quer me bater? -Maia perguntou, na esperança de convencer Mastro ao contrário.



- Ordens do capitão. Mas Mastro promete que a senhorita nem vai sentir. Vai ser bem rápido! -ele disse, tentando convencer Maia. - Olha lá! Um peixe com orelhas!



Maia, mesmo sabendo que estava sendo enganada, resolveu ceder. Estava em um navio pirata, cheio de pessoas e criaturas que ela não conhecia, com um orc educado em sua frente, pedindo permissão para machucá-la. Tudo que ela podia fazer, era pular do navio, e tentar não morrer no oceano, o que era pouco provável. Sem falar que mesmo tendo sido raptada, estava solta, ao contrário de Ladak, que continuava amarrado. Senargh tinha lhe devolvido o diário, e isso devia querer dizer alguma coisa. Por mais que o velho mandasse que ela não confiasse nele e a insultasse, ela não conseguia deixar de confiar nem gostar dele. O insulto só havia lhe deixado triste, mas não com raiva ou rancor. Ela só precisava esperar um novo dia raiar, para tentar conversar com o velho. Se ele era o capitão do navio, então ela estava no lugar certo, com a pessoa certa. Se Senargh era o capitão, ela sentia que estava bem, e que o Grande Oceano havia lhe presenteado com essa oportunidade.



 Respirou fundo, fechou os olhos e virou-se na direção que o orc apontava, perguntando sem a menor curiosidade:



- Onde?



Sentiu uma pancada forte na cabeça e gemeu de dor. Ficou tonta por alguns minutos e disse colocando a mão na cabeça:



- Doeu! -disse quase que sem ar.



- Desculpa Mastro. Era pra senhorita ter desmaiado! -o orc disse com dó.



- Senhora! -ela gritou extravazando a dor.



- Desculpa, mas Mastro vai ter que dar outra -ele disse confuso, sem saber se devia ou não.



- Mas porque tem que me bater? -ela perguntou brava com a pancada.



- O capitão mandou. Disse que era pra Mastro deixar a senhorita apagada aí dentro. -ele se explicou.



- Mas eu já estou tonta! Minha cabeça dói...



- Capitão não disse tonta. Disse apagada! -explicou confuso, coçando a cabeça como se estivesse em um grande dilema. - Olha lá! Um...



Maia correu para dentro do aposento em sua frente, e trancou a porta, deixando o orc do lado de fora.



- A senhorita está bem? -ele perguntou preocupado.



- Sim, eu estou. Pode ir... -ela respondeu lá de dentro, aliviada por ter se livrado de mais uma pancada.



- Droga! Não era pra estar... Pode vir aqui um pouquinho pra Mastro te mostrar uma coisa? -ele perguntou, como se realmente pudesse enganar a menina.



- Ah, não... -Maia disse, dissimulando. - Agora percebi que estou ficando bem mal, até acho que vou desmaiar...



- Verdade? -o orc perguntou animado, acreditando na jovem.



- Sim... Já estou desmaiando! -ela disse com grande exagero.



- Certo, então! Qualquer coisa, fique aí, bem desmaiada! -respondeu satisfeito e orgulhoso.



Maia não podia enxergar nada. Era um quarto escuro, e tudo que ela podia fazer era dormir, a espera de um novo dia. Sua cabeça doía da pancada. Certamente ficaria inchado. Mas ela tinha que dormir. Dessa vez, sem escrever em seu diário, sem se cobrir com o velho cobertor... Dessa vez, tudo que ela tinha eram as lembranças que a faziam viajar para outro lugar, esquecendo qualquer dor, desconforto, medo ou o que quer que fosse. Acomodou-se em um canto, fechou os olhos e imaginou-se naquela grama macia, a beira de um rio, perto de uma fogueira com um coelho assado.




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