sábado, 20 de dezembro de 2014

A Maldição da Lua Negra - Parte 7



"Acabei de chegar da festa no salão do navio. Haviam muitas pessoas importantes por lá. Mal cheguei e Emahú já correu para me receber,  com toda aquele ânimo insuportável. É claro que ela estava cercada de amigas, todas com lindos vestidos, perfumadas e enfeitadas, e todas elas pararam para me observar, como se eu fosse um animal exótico naquele salão. Acho que isso aconteceu porque não usei vestido, e sim minha couraça negra de praxe.
Levei Senargh comigo. Achei que seria divertido para ele participar deste tipo de reunião, afinal a bebida e comida é farta, e assim ele pode se divertir um pouco. Para isso, comprei vestes novas para ele, e o obriguei a amparar a barba. Ele me acompanhou como se fosse meu servo, mas quando chegamos lá, Emahú me obrigou a ficar perto dela e das outras jovens. Ela disse que está certa que Ladak a pedirá em noivado antes mesmo de chegarmos em Fathalla. Senti pena dela... Se ela soubesse que o canalha já tem planos diferentes... Ele estava lá com seu negro mago, e foi muito gentil e agradável. Conversamos coisas banais por um tempo enquanto dançávamos. Ele, mesmo sendo um nobre, não me parece se importar tanto com lealdade ao Rei, e tudo que quer é se aproveitar do título de nobreza e se aventurar nos mares. Meu investimento lhe cairia como uma luva, e ele não me parece ter medo de sofrer represálias quanto a exploração do continente.
Enquanto todas as meninas dançavam para os homens que estavam um pouco mais afastados, provavelmente tratando de negócios, eu ainda podia suportar a tortura de toda essa futilidade, mas quando começaram a jogar dados apostando peças de roupa, eu realmente tive que disfarçar e voltar para meu quarto.
É uma desgraça como tudo me lembra dele. É a primeira festa que vou desde sua morte, e tudo que vejo, é como se eu tivesse uma história sobre ele para contar. Lembro-me da noite em Fláêrún... Eu estava fugindo de Azirráh, tentando o evitar durante toda a festa na cidade, até que quando cheguei perto dos tambores, dei de cara com Andi. Eu jurava que ele ia me dedurar para o irmão, mas tudo que ele fez foi sorrir e dançar. Acho que foi naquela noite que ele ganhou minha confiança...
Não posso esperar diversão em festas, sei disso... Mas é como se quando eu lembrasse, pudesse sentir novamente o que eu sentia. Depois volta a doer como sempre, mas é bom lembrar. É um momento só meu. Só eu sinto, e só eu vejo, dentro de minhas lembranças cada detalhe, cada momento. Acho que são esses momentos os únicos que não me sinto culpada de sorrir ou me sentir feliz...
Queria poder viver dentro das minhas lembranças..."

Maia acordou, pegou o desjejum deixado em frente a porta e voltou a dormir. Preferia que os dias passassem com mais pressa, a livrando das decisões que tinha que tomar. Próximo ao horário de almoço ela resolveu sair. Precisava sentir o vento e a maresia do oceano, era como se ela estivesse sufocada pela dúvida.

Ela tinha que aceitar a realidade dos fatos: era só uma viúva sozinha e cheia de planos ambiciosos e vingativos. Os navios de Ladak haviam tirado seu sono na noite passada, e o peso da dúvida e da indecisão a atormentavam o tempo todo. É claro que ela queria um navio para si. Isso obviamente ela poderia ter a qualquer momento, afinal, com a fortuna que Andi havia deixado para ela, ela seria capaz de comprar, mas quem navegaria? Quantas pessoas ela precisaria ter em seu navio? Que tipo de pessoas, com quais funções? Como encontrá-los? Quem iria querer se aventurar em um navio com ela, correndo o risco de ser pego por prática de exploração indevida?

O céu parecia limpo, o vento batia em seu rosto e penetrava em sua alma. Com os olhos fechados, ela inclinou o corpo para fora do navio, como se pudesse voar, como se a brisa do vento fosse capaz de aliviar todo o peso de suas responsabilidades. Era como se ela pudesse sentir o Grande Oceano a abraçando, e ela se sentiu confortável neste abraço. Se Ladak era seu caminho para poder abraçar o mar, isso ela não sabia, mas sabia que o mar a queria para si, e ela não se importava em como conseguir isso. A única certeza que tinha era a de que ali, com os olhos fechados, nos braços do Grande Oceano, era seu lugar. Ali ela era realmente livre, sem medos, sem lembranças, sem dores nem culpa. Ali ela era ela mesma...

Mas quando abriu os olhos, percebeu que estava sendo observada, e isso a deixou constrangida. Que tipo de pessoa não compreende um sentimento de liberdade? Porque a olhavam com tanta curiosidade, quando o que ela fazia era tão claro? Será que nunca haviam tentado abraçar o mar? Nunca tentaram se sentir livres? Com o que, então se preocupava essa gente? Maia não compreendia o porquê as pessoas evitavam tanto seguirem caminhos que não eram vindos do coração. Tudo que faziam eram pelos outros: honra, beleza, ouro, status... Isso a enojava!

Ajeitou os cabelos para trás com uma tira de couro, e saiu dali. Estava com raiva por não poder ter sossego sem que fosse vigiada ou julgada por pensamentos alheios. Chegando em seu quarto, deitou-se novamente na cama e tentou dormir, mas sabia que precisava decidir o que fazer. A dúvida lhe consumia com força, e além do sono, havia perdido a fome.

- Não vai comer nada, menina? -disse Senargh enquanto entrava pela porta do quarto, ainda limpando os dentes com a língua.

- Sem vontade de comer. -ela disse sem olhar para o velho.

- Magricela deste jeito, se não colocar nada nesta barriga, vai ser carregada pelo vento. -ele disse sorrindo. Mas Maia não riu, nem esboçou reação alguma. - Está atormentada, menina... Porquê não esquece tudo isso e segue a vida como todo mundo?

- Não consigo... Nem quero!

- Então, o que vai fazer quando chegar em Fathalla? -ele disse, tentando mudar o rumo da conversa.

- Não sei... Talvez eu consiga algum trabalho em algum navio. Preciso aprender como funciona, conhecer gente, e depois talvez compre um navio.

- Quer mesmo esse navio, não é? -ele disse sentando-se na cama.

- E agora ele está tão perto... Está a um "sim" de distância. -ela disse agoniada.

- Mas você gosta dele? -ele perguntou franzindo a testa.

- Claro que não. Nem o conheço direito! -ela respondeu prontamente.

- Então porque se casaria?

- Porque é o único jeito de eu ter um navio. É a oportunidade perfeita que eu tenho de ficar próxima de pessoas importantes e receber informações relevantes.

- Vai ser tão livre quanto um grifo selado. -ele disse dando com os ombros.

- É o preço a se pagar...

- Não acho que seria esse o desejo do menino Andi. -ele disse despretensioso.

O velho estava certo. Por alguns segundos era como se ela pudesse ver Andi sentado ao seu lado, participando da conversa com uma expressão seria em seu rosto. Era como se ela pudesse ver ele reclamando de toda essa conversa chata sobre vingança. Estava certa de que se ele pudesse a ver agora, certamente se afastaria com medo, com receio, e com tédio... Se Andi tivesse um navio, estaria agora navegando com os olhos fechados, sem saber para onde estavam indo, sem medo das consequências. E quando o mar estivesse agitado, ele urraria alegremente, festejando a emoção e a sensação de correr perigo. Tantas vezes ele correu perigo... Quando desenhou com carvão no rosto de uma gigante adormecida, ou quando pulou do alto de uma cachoeira. Andi parecia nunca sentir medo, e se divertia sempre com o perigo... Ele talvez não se importasse de morrer, se morresse sorrindo, sentindo aquele frio na barriga que se sente quando se vive uma aventura. Certamente Andi nem cogitava a morte. Para ele era como se a liberdade o deixasse imortal. Mas lá estava Andi, sentado ao seu lado, serio, preocupado, decepcionado com ela.

" - Vamos correr o mundo, e eu terei uma mulher a cada noite!" -ele dizia com o peito estufado e um sorriso esperançoso no rosto. Era isso que ele queria que ela fizesse. Ele certamente iria querer que ela seguisse, que vivesse tudo que ele não conseguiu viver, que vivesse com intensidade dobrada! E ela faria isso... Ela compraria um navio e o chamaria de Andi, e com Andi ela cruzaria o mundo, e juntos veriam tudo que jamais foi visto, e correriam perigo juntos, sem medo. E quando estivessem em meio a tempestade, ela gritaria freneticamente, e festejaria o frio na barriga. Mas antes disso, ela precisava se libertar. Ela precisava se livrar da culpa e do remorso da morte dele. E a menos que Andi pudesse retornar a vida para impedi-la, ela não desistiria.

 - Andi não está aqui para desejar nada. -ela disse com firmeza. Senargh pode sentir o nó que havia se formado na garganta da jovem.

- Compre seu navio e saia livre pelo mundo, menina... Não deve se vender por essa vingança sem futuro! -ele disse solidário.

- Não tenho como manter um navio sozinha, Senargh... Se você ao menos pudesse me ajudar...

- Eu? Como? -ele perguntou surpreso.

- Se você soubesse navegar e estivesse disposto a me ajudar, eu compraria um navio para a gente! Poderíamos viver navegando e descobrindo lugares que ninguém jamais pôs os pés! Você não precisaria passar sua velhice em Fathalla, trabalhando para algum pescador sujo. Você poderia ser o capitão, e eu...

- Está dizendo que gastaria sua herança comprando um navio para mim? -ele arregalou os olhos.

- Se eu pudesse navegar e aprender com você... Sim.

- Está louca, menina! -ele esbravejou.

- Porquê? Você sabe navegar!

- O que está dizendo? Tudo que sei é o que vi em minha miserável vida, viajando de um lado para outro em navios de outras pessoas!

- Eu poderia pagar pela sua companhia! Posso lhe contratar, Senargh! Confio em você, e não quero que fique em Fathalla...

- Esqueça isso, menina! Sou velho demais para correr atrás de aventuras. Quero uma velhice sossegada e tranquila... -ele disse encerrando o assunto.

- Então, se não pode me ajudar, não me critique por eu tentar me virar sozinha! -ela finalizou, aconchegando a cabeça no travesseiro e fechando os olhos, como se fosse capaz de dormir.

- Você fala tanto em liberdade, mas vai estar presa a um casamento. Deveria fazer exatamente o contrário! -ele disse, percebendo que Maia não seria capaz de dormir.

- Estou fazendo o que posso... Acha que eu quero me casar? -ela disse abrindo os olhos e encarando o velho indignada. - Acha que quero encerrar meu luto? Mas se eu não fizer isso, vou ser uma negra perdida em Fathalla, implorando por trabalho e aprendizado. Depois disso tudo, minha melhor alternativa é ir para Melitra, implorar para ser aceita em um navio, e rezar para não ser abusada!

- Não é assim que faria um pirata... -ele murmurou.

- Eu não sou uma pirata, Senargh... -ela disse encerrando a conversa.

Maia não conseguiu dormir, e depois da discussão com Senargh, sentia-se presa no navio, sem ter lugar para ir. Levantou subitamente e abriu a porta do quarto, fechando com força quando saiu. Precisava por um fim naquele tormento, naquelas dúvidas, em sua incerteza. Cruzou o corredor, e caminhou em direção ao salão de festas.

- Um licor de... Não! Me veja rum! -ela disse ao senhor que limpava o balcão.

- Uma bebida forte para a menina de personalidade forte... -disse uma voz vinda do fundo do salão. -

Maia olhou para trás surpresa e viu Ladak sentado na penumbra de uma mesa no canto do salão.

Será que ela não poderia ter um minuto de paz e sossego neste navio?

- Rum é bebida de brancos, sabia disso? -ele disse enquanto o velho do balcão lhe servia a bebia. - É o preferido dos marujos... Os faz esquecer a fome, e aquece o corpo do frio... Mas eu gosto. Nos deixa alegres com mais facilidade. -ele disse fazendo sinal para que o velho do balcão o servisse também.

- Não quero ficar alegre... -ela disse bebendo o líquido de uma só vez.

- Isso é inevitável... A alegria vem sem pedir licença. É como a tristeza, que vem sem ser cordial.

- Você não sabe nada sobre isso... -ela disse fazendo uma careta, ainda por causa da bebida.

- Você julga demais, Maia... Julga sem saber e sem dar oportunidade aos outros de mostrarem quem realmente são.

- Você quem me pediu em casamento sem me conhecer. Você me julga sem saber.

- Não... Está errada. Sei algumas coisas sobre você, e por isso quero conhecê-la. Dar a oportunidade de se ter uma boa relação não é julgar, pelo contrário... -ele disse com um sorriso gentil.

Ladak estava certo. Maia não agia diferente de ninguém daquele navio, julgando as moças por sua futilidade sem nem ao menos as conhecer e julgando as intenções de Ladak sem saber... Sentiu-se envergonhada por alguns momentos, levantou e sentou-se na mesa com Ladak.

- Quantos navios você tem? -ela perguntou.

- Com esse, são três. Este é meu navio pessoal, para transporte de pessoas. Os outros dois são de cargas.

- Sabe que quero explorar o continente, não sabe?

- Sabe o lucro que uma exploração bem sucedida pode nos render?

- Mas é proibido explorar além do continente. -ela disse, como se Ladak não soubesse disso. - Ir para Além Mar é pedir para ir para a forca.

- E quem vai colocar esta corda no pescoço do Rei de Zolkan? Com seu investimento, vamos apostar em uma frota de exploração. Uma frota com a bandeira de Zolkan, em nome do Rei. Quem ousará nos impedir? Depois, sabe-se lá o que podemos encontrar... O que quer que seja pode nos deixar ricos!

Ladak parecia falar serio. Parecia ser sincero em cada palavra. Ele era cunhado do Rei, havia verdade no que ele dizia.

- Quero ser livre, Ladak. Me casarei com você, mas não serei sua propriedade. Não tocará em mim, nem me cobrará afeto. Seremos sócios, apenas isso... -ela disse encarando o homem no fundo de seus olhos.

- Seremos amigos, Maia. Parceiros. Já disse, casamento pra mim é negócio, e sei que você é a menina ideal para isso.

- Não quero anunciar casamento. Não vou me precipitar... -ela disse com peso em suas palavras.

- Vamos noivar... Quando achar que está pronta, quando confiar em mim, nos casamos. -ele disse com um sorriso de satisfação no rosto. Maia apenas consentiu com a cabeça. - Amanhã a noite nos encontramos aqui no salão de festas, e eu lhe pedirei em noivado formalmente.

Maia não conseguia dizer nada. Apenas consentia com a cabeça. Ao lado via Andi, triste e decepcionado, desaprovando a decisão que ela havia tomado.

Maia levantou delicadamente e voltou para o quarto. Por pior que sentisse que havia sido sua decisão, aquele peso da dúvida não pesava mais. O que ela temia agora era a incerteza, se tinha tomado a decisão certa ou não.

Passou o dia sem falar com Senargh, mas aceitou o cachimbo quando ele ofereceu. Na noite seguinte, Maia tirou a couraça negra e vestiu um vestido verde, que havia trago junto na mala. Não que ela tivesse a intenção de sair do luto, mas aquele vestido havia sido de sua mãe quando jovem, e foi o mesmo que ela usou na noite da festa na rua de Fláêrún, no dia que dançou com Andi pela primeira vez, e o valor sentimental a havia motivado a trazer junto na mala. Sentia-se triste, uma traidora por tirar o luto. Tentou colorir os lábios e os olhos, mas as lágrimas que escorriam de seu rosto não deixavam, então ela limpou o rosto com um lenço, e decidiu que iria de rosto limpo.

Guardou a couraça no baú, mas as adagas ela vestiu por debaixo do vestido. Tanto tempo as carregando junto, ela se sentiria desprotegida e insegura se as deixasse. Seu diário ela resolveu levar dentro de uma pequena bolsa de couro. Depois que Senargh o havia lido, ela não gostaria de correr o risco de mais ninguém o ler. Era uma festa, e Senargh a seguiria, como seu servo, não teria problema que ele carregasse o diário.

Quando Maia entrou, todos a olharam. Olhavam quando ela vestia couraça, olhavam quando usava vestido... Resolveu deixar de lado, e aproximou-se de Emahú, que falava sem parar:

- Soube que hoje Ladak pedirá alguém em casamento...

- E quem será, eim Emahú? -disse uma outra menina que parecia feliz por Emahú.

- Estou ansiosa, meninas... Mal posso me conter!

Maia apenas sorria com simpatia forçada. Não ousaria tirar as esperanças da jovem Emahú, nem conseguia fingir não saber de nada. Por mais que não fossem amigas, sentia-se uma falsa traidora. Sabia que depois daquela noite, Emahú a odiaria pelo resto da vida. Mas Maia não se importava com o ódio da menina...

Quando a viu, Ladak sorriu e caminhou até Maia, a cumprimentando com um beijo na mão. Ladak era o centro de todas as atenções na festa. O salão estava mais enfeitado do que de costume, e todos aguardavam pela "novidade" que Ladak havia prometido contar. É claro que já sabiam do que se tratava, mas não com quem. Emahú era a principal candidata, a mais extrovertida e bonita. A dias que ela ficava em volta de Ladak, conversando e se mostrando o mais divertida e agradável possível.

- Bonito vestido... -ele disse.

Maia consentiu com a cabeça. Seu sorriso, por mais que ela tentasse disfarçar, não conseguia parecer natural nem espontâneo.

- É agora. Vamos lá? -ele falou baixinho para ela antes de sair. - Fique próxima, que anunciarei.

Ladak pegou um cálice de licor, pediu que os bardos parassem de cantar, e pediu silêncio a todos, que interromperam suas conversas no mesmo instante, curiosos com o que o Lorde tinha a falar. Emahú e as outras meninas sorriram, e se aproximaram de onde Ladak falava. Pareciam nervosas e contentes. Maia fez um gesto para que Senargh a seguisse, ele parecia triste e preocupado, mas Maia tentou ignorar, caminhando até o servo de Ladak, que estava próximo aos guardas do navio.

- Com licença... Peço silêncio a todos... -disse Ladak. - Esta é uma noite muito importante para mim, por isso fiz questão de convidar a maioria das famílias aqui presentes hoje neste navio. É uma honra que sejam testemunhas do que vou anunciar em breve...

Maia não conseguia prestar atenção em Ladak, nem em nada mais, a não ser nas lembranças que invadiam sua mente sem pedir licença. Não conseguia parar de pensar na noite em que Andi a pediu em noivado. Não tinha metade das pessoas que ela via agora, mas tinha três vezes mais nervosismo. Ela podia se ver claramente, sentada naquela mesa, tentando evitar as risadas que Andi tentava lhe causar fazendo caretas para Azirráh... Era como se ela ainda pudesse ver ele, com a cara mais inocente do mundo, sabendo que ia fazer besteira, com um sorriso debochado, de peito estufado e ouvir:

"- Antes de mais nada, e aproveitando o momento oportuno desta linda noite junto de nossas famílias, eu gostaria de anunciar a todos aqui presente que eu e  Maia Terrrani estamos noivos, e claro, pedir oficialmente a mão dela em casamento!".

Mas não foi isso que Maia ouviu. Ao invés disso Ladak disse:

- ...algo que me encantou durante estes dias, que foi a linda Maia Terrrani, que orgulhosamente peço em noivado em frente a todos aqui reunidos.

Era como se naquele momento os deuses tivessem apontado para Maia, e todos viraram os olhos surpresos para a jovem, que de um momento sonhando se sentiu subitamente arrastada para a realidade, e isso a deixou completamente desajeitada. Estava tudo planejado, ela sabia que seria pedida em noivado, mas quando Ladak disse aquilo, ela se sentiu tão surpresa quanto os convidados que a olhavam sérios, sem entender nada.

Ladak estendeu a mão para Maia, a chamando para mais perto dele. A menina respirou fundo, tentou encontrar Emahú, para ver como a jovem havia recebido a notícia, mas não a viu. Se aproximou de Ladak, e todos aplaudiram o mais novo casal de Zolkan.

Senargh parecia nervoso ao lado de Maia. Parecia não gostar de estar em frente a uma multidão de nobres pomposos. Estava claro sua oposição quanto ao noivado. Mas algo chamou a atenção de Maia. Por um segundo, olhando em direção a porta do salão, ela pode ver um vulto negro passando por entre o corredor. Ela não disse nada. Não tinha certeza se seus olhos a enganavam... Mas logo em seguida todos ouviram os gritos que vinham de cima do convés.

Por instantes todos se calaram, tentando entender o que acontecia. Os guardas correram formando uma barreira em frente a Ladak e Maia. O servo do Lorde tomou a frente, e o restante das pessoas começaram a correr para todo lado com medo. Senargh assustado correu para perto da jovem. Ladak gritou para Maia:

- Fique perto de mim!

Do corredor, todos puderam ver o que parecia ser um homem. Com o rosto coberto por um lenço negro, ele caminhava sem pressa segurando duas adagas longas sujas de sangue. Os guardas correram na direção do homem, que parecia ter extrema facilidade em combate. Desviava das espadas com uma agilidade felina, e contra atacava mais rápido ainda. Não demorou muito para que chegasse ao meio do salão de festas. Quem quer que se atrevesse a cruzar seu caminho, era logo jogado ao chão pelas adagas sedentas de sangue. O homem desconhecido encarou os guardas que cercavam Ladak e Maia, e por um instante a jovem admirou o assassino.

- Piratas!!! -gritavam as pessoas em meio a confusão.

Maia pegou suas adagas, e Ladak arregalou os olhos quando percebeu isso.

- Está louca? Fique aqui! -ele gritou. - Precisamos sair pelos fundos do salão!

- Maia... Dê-me uma espada. -disse Senargh. - Sem nada estou inútil!

Maia olhou para o guarda em sua frente e gritou:

- Não ouviu? Dê uma espada a ele!

O guarda demorou alguns segundos até aceitar as ordens da noiva de seu Lorde, e entregou a Senargh uma espada.

O pirata misterioso encarou Maia novamente, e ela se sentiu desafiada. Deu dois passos a frente, e preparou-se para atacar o homem.

- Vamos! Por aqui, Maia! - gritava Ladak, tentando fugir por trás do salão enquanto três guardas lhe escoltava.

Por mais medo que tivesse, Maia não aceitava ficar parada ali, sem fazer nada, escondendo-se atrás de guardas. O servo olhou para Maia, se perguntando o que ela pretendia fazer, e quando Maia foi atacar o homem, ele deu dois passos a frente também, para atacar junto.

Mas foi quando Senargh se aproximou das costas do mago, e lhe cravou a espada, atravessando sua barriga com força.

Maia arregalou os olhos sem entender nada, e olhou espantada para Senargh. O mago olhava para a própria barriga coberta de sangue, parecia apavorado. Encarou Senargh, e caiu no chão. Ladak gritava palavras sem sentido, e Maia já não sabia mais para que lado correr. Foi quando Senargh se aproximou do homem misterioso, e apontou para Ladak. Depois virou para Maia, e com o cabo da espada, golpeou a cabeça da jovem menina.

Depois ela viu fogo. Água... Gritos... Mais fogo, e uma escuridão completa.



Fim do primeiro capítulo.

***CONTINUA***

Já leu as partes anteriores de A Maldição da Lua Negra? Não fique por fora: 
Parte 1, parte 2, parte 3, parte 4, parte 5 e parte 6.

Também não se esqueça de comentar!

Um comentário:

  1. Fiquei tenso de verdade nesse capítulo. A personagem já me cativou, e o desenvolvimento dela segue interessante, além desse plot twist no final. Foi um bom final de arco!

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