segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

A Maldição da Lua Negra - Parte 6



Já estavam a quase dez dias viajando. Maia gostava de passar o tempo na pequena janela de seu cômodo no navio, sentindo o balanço das ondas do mar e sonhando com seu futuro incerto. Poucas vezes ao dia saia para sentir o sol, ou a noite, para praguejar a lua:



- Amiga Invejosa... Entreguei meu destino em tuas mãos e brincaste com ele. Fez de mim tua imagem: triste e solitária. Agora aqui, quando olhares para mim em meio ao oceano, verás também o teu reflexo sobre as águas. Cada vez que me vires, saberás que também estás sozinha e triste em meio ao escuro... Eu te odeio, Amiga Invejosa! Mas saiba, que diferente de ti, eu posso viver o meu luto e a minha desgraça. Eu posso me vingar de meu destino. E tu? Tu só pode se lamentar. Então olhe bem pra mim, e veja como é que eu me vingarei...




- O que está fazendo aqui sozinha, Maia? -ela ouviu a voz de Senargh aproximando-se.



- Nada de mais... -ela disse disfarçando.



- Estava falando sozinha?



- Orando apenas. -ela respondeu cabisbaixa, enquanto tirava o cabelo caído sobre os olhos.



- Ah! Não quis incomodar... -Senargh disse desajeitado.  - Logo estaremos passando pelos Reinos Rochosos.



- Será que vamos contorná-lo por fora? Demoraremos mais uns cinco dias se for assim...



- Não creio. Ontem a noite cruzamos com um navio da guarda imperial. Isso quer dizer que o caminho está livre de piratas ou alguma criatura. Sem falar que navios de Zolkan tem livre passagem por entre os Reinos Rochosos, isso nos adiantará alguns dias de viajem.



- Como? -ela perguntou curiosa. - Anões não gostam de ninguém!



- Anões são misantropos, mas permitem que navios de Zolkan passem por suas terras, assim além de comércio, aproveitam a guarda que esses navios oferecem, livrando os Reinos Rochosos de piratas e monstros marítimos. -explicou Senargh.



- E como sabe disso tudo?



- É como eu disse... Muitos anos no mar... Viajando, entende? -Senargh disse confuso. Certamente estava bêbado. - Vamos entrar? Está um pouco frio aqui fora. -falou enquanto esfregava os braços com as mãos rapidamente.



Pela manhã, acordou com as mesmas batidas na porta de sempre. Senargh continuava dormindo um sono pesado e parecia não acordar tão cedo.



- Branco bêbado... -ela murmurou para si mesma antes de abrir a porta para pegar seu desjejum.



- Bom dia, senhora! -disse um negro quando ela abriu a porta. Vestia uma túnica roxa, com bordados dourados, combinando com o turbante que escondia uma provável careca. Aparentava ter por volta de cinquenta anos, mas ainda assim exibia um porte grande e bem saudável.



Maia assustou-se com a visita inesperada, e recuou instintivamente. Percebeu que a bandeja com o desjejum não estava próxima a porta, o que significava que era cedo demais, ou a criada do navio não havia passado. Maia encarou o homem com uma expressão séria e não disse nada. Certamente ela não o conhecia, nem tampouco o havia visto pelo navio, mas reconheceu o símbolo dos deuses no colar do homem, o que queria dizer que ele havia pertencido a Escola de Magia.



- Meu mestre solicita sua presença para um agradável desjejum. Vim aqui para buscá-la. -ele disse, entendendo que Maia não responderia a gentileza do "bom dia".



- E quem, por acaso é seu mestre? -ela perguntou confusa, afinal, como um negro, mago, poderia ser servo de alguém? A não ser que fosse alguém muito importante.



- Lorde Ladak, minha senhora. Ele é o dono deste navio.



- E o que o "Lorde deste navio" -ela disse ironizando. - quer comigo?



- Vista-se e me siga. Lhe aguardarei do lado de fora. -ele respondeu sem exibir emoção alguma.



Maia fechou a porta ainda confusa. Ladak... Ela já havia ouvido Emahú falar dele. Pareciam ser íntimos, talvez noivos... Mas agora Maia estava curiosa. O que será que ele queria com ela? Que assuntos ele teria para tratar em um desjejum? Infelizmente ela só saberia indo até lá. Que mal haveria? O navio era dele, e não ir poderia soar com indelicadeza... Sem falar que não havia nada de mal se aproximar de gente tão poderosa e influente. Se ela queria algum dia descobrir as mentiras dos reinos e as expor, ela teria que estar dentro de toda essa sujeira. Não era somente um desjejum, era a oportunidade de começar a levantar contatos!



Maia vestiu-se rapidamente. Colocou a couraça negra, as duas adagas na cintura, prendeu as tranças de seu cabelo com uma tira de couro e lavou o rosto. Abriu a porta e seguiu o negro pelo corredor. Passaram pelo salão de festas vazio e subiram as escadas, que dava para mais um corredor. Ao fundo havia uma porta. Era diferente das outras do navio, pois esta era ornamentada com desenhos talhados na madeira, como se ela tivesse sido trançada.



O negro deu duas batidas na porta e a abriu, revelando o que parecia ser uma enorme sala de jantar. As paredes eram decoradas com quadros pintados e cabeças de criaturas marinhas. O chão era completamente coberto por um tapete azul e macio, que ficava sob os pés de uma grande mesa de madeira, trabalhada em detalhes artesanais, com pequenas flores esculpidas nos mais ricos detalhes.



Sentado a mesa estava um jovem de cabelos encaracolados, penteados para trás e soltos até o ombro. Vestia uma camisa verde escuro, parecia ser feita de um tecido leve. Com rosto fino e belo, ele sorria delicadamente para ela enquanto se levantava da mesa em um gesto cortês.



- Bom dia, Maia. Sente-se e fique a vontade, espero ter acertado em seu paladar para este desjejum... -ele disse cordialmente.



Maia não sabia o que estava acontecendo, mas decidiu entrar no jogo e ver até onde isso iria levá-la. O servo puxou uma cadeira, deixando Maia sentada de frente para Ladak.



- Seu convite me pegou desprevenida, afinal não é sempre que um Lorde me convida para um desjejum... -ela disse enquanto se acomodava na cadeira.



- Perdoe-me por ter me precipitado, mas não pude conter minha ansiedade em ver pessoalmente Maia Terrrani.



- Maia Terrrani Anjhí. -ela corrigiu sutilmente. - Mas porque ansiava em me ver?



- Anjhí. É claro! -ele disse corrigindo-se. - A senhora pouco é vista por este navio. Quando Emahú me contou de sua estadia aqui, fiquei curioso para conhecer a filha da mulher mais bonita do continente. Pelo menos é essa a fama de sua mãe.



Maia bebeu um gole do que estava no cálice a sua frente. Era doce, parecia licor de Prata. Era assim que chamavam o licor feito de tomate azul. Fingiu não prestar atenção no elogio que acabara de receber, e encarou novamente o homem a sua frente.



- Como já deve saber, sou o dono deste navio. Minha irmã casou-se recentemente com o Rei, que sinceramente, já deve ter mais esposas do que todos os outros reis juntos. O fato é que hoje sou cunhado do rei, e um dos melhores partidos que essa cidade tem no momento...



- Estou certa que sim. -Maia disse com um pouco de sarcasmo.



- Sim, eu sou. -ele afirmou. - E sei disso porque tem uma porção de belas jovens nesse navio que fariam de tudo por uma proposta de casamento minha.



- Mas já não estás noivo de Emahú? Pelo menos é isso que ela deixa transparecer...



- Como eu disse, sou um dos melhores partidos... Mas infelizmente, nem Emahú, nem as outras moças me deixaram tão intrigado como fiquei por você.



- Perdoe minha indelicadeza, mas não entendo onde quer chegar. Sou uma viúva, e estou certa de que este tipo de reunião matinal não é muito apropriado...



- Entenda, Maia. Eu sei quem você é. Sei que se casou com o menino Anjhí por interesses, sei que está aqui se escondendo de um passado trágico, e sei que o mar lhe fascina. Sei tudo sobre você.



Maia parou de mastigar o queijo que tinha na boca, e encarou surpresa o homem a sua frente. Como ele sabia?



- Eu sou um homem de negócios, Maia. Para mim, casamentos são negócios. -ele continuou.



- Vim aqui para me propor casamento? Desculpe se entendi mal, mas...



- Veio aqui para ouvir uma proposta de negócios! -ele disse interrompendo Maia.



- Acha que minha irmã se casou com o Rei por amor? Acha que Emahú está apaixonada por mim? Estava apaixonada pelo menino Anjhí quando se casaram?



- Não fale o nome do Andi, Sr. Ladak! -ela disse alterando um pouco a voz. Respirou fundo, bebeu mais um gole de licor, e continuou: - Não fale... -continuou, agora mais amena.



- Respeito sua dor. Mas entenda que a vida continua, e você ainda está aqui. Eu tenho hoje três navios a meu comando, sou um homem influente. Você tem sua fortuna, e sei que quer para si o mar... Juntos podemos ter uma das maiores frotas marítimas de Zolkan.



- Acha que o que eu busco são as mordomias da nobreza, Sr. Ladak?



- Sei que isso fará parte. Mas sei que o que quer são navios e tripulação. Sei que estabelecidos, podemos ir aonde quisermos. Podemos ter nossa própria frota de exploração!



- Eu sei o que tenho a ganhar com isso, mas e o senhor? Porque eu? -ela perguntou receosa.



- Além de seu investimento financeiro? -ele respondeu de forma espontânea e óbvia. - Quero ao meu lado alguém como eu, com espírito aventureiro, que não tenha medo de ir cada vez mais longe. Não quero uma esposa que me espere em casa, nem que se esconda quando tiver medo. Quero uma que lute ao meu lado, e ao invés de me convencer a ficar em casa, planeje comigo nossa próxima viajem. -ele disse com entusiasmo. - Sei que seremos grandes amigos e cúmplices nisso tudo, Maia. Seremos mais que isso, seremos sócios!



Maia parou e pensou... Uma frota de navios era tudo que ela precisava no momento. Se o preço disso tudo fosse ser exibida como um troféu em um casamento de interesses, talvez fosse o necessário. Ela era livre, e depois de estabelecida, com seu próprio navio, nada a impediria de dar adeus ao gentil Ladak, e nunca mais o ver. Mas era difícil... Ela sabia que nenhum outro homem, mesmo que com um falso casamento, seria tão respeitoso e querido com ela, como Andi. Ladak poderia ser um cavalheiro, mas nunca seria seu amigo o suficiente.



Era como se ela pudesse se ver, com um vestido amarelo, enfeitada com ouro, sentada em uma cadeira acolchoada, com um sorriso forçado e olhar triste encarando lordes enquanto finge estar caída de amores por um desconhecido ambicioso, que quando está a sós com ela passa horas do dia a cortejando e implorando por um pouco de afeto que ela certamente não dará. Era clara a visão de perguntas retóricas e maliciosas que ela não saberia responder, nem como agir na hora de dormir na mesma cama que este desconhecido. E quando ela quisesse partir, teria de dar satisfações a ele, e explicar o porquê de cada moeda investida. Teria de convencê-lo a ir junto em suas explorações, e seria vigiada o tempo todo, quando o que ela mais queria era privacidade e liberdade. E quando a noite ela chorasse lembrando de Andi, teria que chorar baixinho. O cobertor surrado teria que ser deixado de lado, e Cachorro nunca a perdoaria. Quando se casassem, ela conheceria uma nova textura de um beijo, novos lábios se sobrepondo aos de Andi, que ela guardava com carinho.



Mas por outro lado, ela podia se ver sozinha em um navio. Sua mais fiel companheira era a Lua, e esta já havia a traído da forma mais perversa. Ela sentia como se tivesse morrido naquele dia, junto com Andi. Nada mais havia sentido, a vida havia perdido a cor, e ela estava tão fraca. Sentia-se como sem alma, sem vida, sem desejos... Todas suas ambições e sonhos haviam caído por terra no dia que ela entrou naquela aldeia élfica e  viu Andi deitado em uma esteira, com os olhos fechados, frio e sem vida. A criatura mais vívida, mais alegre, mais feliz agora estava rígida, sem expressões, sem energia. Mas ele não estava sozinho... Ela sentia-se exatamente da mesma forma, e o desejo de morte lhe corroeu a alma até não aguentar mais. Mas ela sentia-se fraca, tão fraca que até a coragem de tirar a própria vida havia lhe sumido, e por semanas tudo que ela fez foi tentar morrer de tristeza. Por semanas ela não levantava da cama, não falava, e só comia quando alguém lhe forçava. Sentia-se culpada por Andi, e miserável pela falta de coragem e competência em morrer.



Mas foi então que ela se cansou... E toda sua dor ficou guardada no fundo de seu peito, dando espaço para uma revolta. Se ela não era capaz de causar sua morte com suas próprias mãos, então ela não temeria correr riscos e enfrentar perigos. Ela sabia que Andi a estaria esperando em algum lugar bom, e ela precisava ir para junto dele. Isso foi o que Maia precisava para se levantar daquela cama, e reagir.



" - Nada de bom posso eu esperar dessa vida. Quero sentir cada fisgada de dor que esse mundo pode me oferecer. Se a inveja desta Lua me tentou tirar o rumo, ela então verá que nem disso ela é capaz!"



Este era seu novo lema. E se para isso ela precisasse perecer, talvez qualquer sacrifício fosse bem vindo. Mas ela estava novamente confusa, como quando era apenas uma criança sem saber se deveria ir para a Escola de Magia, caçar com tio Wee, ou tentar convencer a todos que seria uma ótima Águia Prateada. A dúvida a havia perseguido por toda a vida, e Andi foi sua única certeza. Por isso ela precisava de tempo. Precisava pensar e pesar tudo antes de tomar uma decisão.



- Preciso de tempo para pensar... -ela disse enquanto se levantava da cadeira.



Ladak levantou-se também em respeito e disse:



- Pense com cuidado, Maia. Lhe espero hoje a noite no salão de festas. Uma jovem como você merece se divertir...



Maia não respondeu nada. Sentiu uma extrema vontade de rir da ironia que sentiu, mas preferiu sair sem se despedir, nem olhar para o homem. Estava confusa, com medo. Parte de si gritava, dizia que era uma ótima oportunidade, mas outra parte lembrava de Andi, e a acusava de traição.



Passou a tarde calada, deitada na cama, apenas sentido as ondas do mar. Novamente estava sem rumo. Quando resolveu debruçar-se na janela, percebeu Senargh se aproximando lentamente.



- Ele me propôs casamento... Casamento em troca de meus navios. -ela disse sem olhar para o velho.



Senargh estendeu a mão em direção a jovem, e lhe entregou um saco de moedas.



- Eu disse para não confiar em ninguém aqui... -ele disse com uma voz tímida.



- São suas. Moedas não me faltam, Senargh...



- Eu lhe traí. Foi eu quem contou tudo a ele. Mas entenda, eu...



- Eu sei que foi você. Quando contei sobre mim, sabia do risco. Mas confio em você... -ela interrompeu.



- Porquê? Porque confiar em um velho bêbado? Acabei de lhe trair! -Senargh disse indignado.



- Eu não sei... Só sei que sempre duvido de tudo, e nunca sei o que fazer, nem em quem confiar... Mas gosto de você, e confio mesmo assim. Não sinto dúvidas quanto a isso. -ela disse com serenidade. - Só por favor, não faça isso novamente...



- Não deveria confiar nas pessoas, Maia. Não deveria confiar em mim...




*CONTINUA*



Se gostou, não se esqueça de comentar!

Já leu as partes anteriores? Não fique por fora:
Parte 1, parte 2, parte 3, parte 4, e parte 5.
E não perca o final deste capítulo. Confira a parte 7

2 comentários:

  1. Sujeitinho convencido esse Ladak =p Adoro como a personalidade da Maia é bem trabalhada, e sempre mostra algo novo. E seu universo continua colorido e divertido de imaginar.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Cunhado do Rei... 30kg só de ego, rsrsrs...

      Excluir