quinta-feira, 27 de novembro de 2014

A Maldição da Lua Negra - Parte 4




"Hoje é o dia do Choro de Celune, e eu estou tão feliz...
Minha mãe mandou preparar os melhores pratos, e o papai disse que o tio Shar vem celebrar conosco. Eu fiquei muito feliz quando papai disse isso, porque o tio Shar é meu tio preferido, e ele sempre chega com muitos presentes.

Estou ansiosa para que a noite chegue. Adoro as músicas, e a Valsha disse que ouviu o papai dizer que trará dois bardos aqui em casa.

Esta é a melhor noite do mundo!"



"Eu estava certa, e a noite foi incrível! Passei pelo Choro no telhado de casa com Valsha, por que lá é o melhor lugar para se poder ver o céu. Celune estava linda. Quando ela começou a chorar por seu filho, meu coração se encheu de alegria e esperança, e pedi que ela me guiasse, me mostrando um caminho a seguir, pois não quero ficar noiva de ninguém, como a Azuth ficou. A Valsha disse que vai para a escola de magia, e papai já deu permissão. Ela quer que eu vá com ela ano que vem, mas não tenho certeza. Na verdade não tenho certeza de nada nessa vida... Queria ter certeza de algo, ainda mais agora...

Quando eu terminei de fazer meu pedido e abri meus olhos, vi o tio Wee chegando! Fazia anos que ele não aparecia, nem dava sinal de vida. Papai achava que ele já estava morto e por isso ficou espantado com a chegada dele, e eu entendi tudo: era Celune me dando um sinal. Decidi que eu quero ser caçadora como é o meu tio Wee!

Ah, quase me esqueci! O tio Shar me trouxe o melhor presente do mundo: um colar de rubi de dragão com um verme dentro. O tio Wee disse que esses rubis são especiais, porque eles são retirados dos estômagos de dragões de rubi. Por isso que o meu veio com um verme... Ele ainda disse que o verme continua vivo, latente. Mas que se colocar ele perto da lava do vulcão mais quente, podemos retirar o verme. Ele entra na nossa pele, e faz a gente de hospedeiro! É claro que por causa disso a pessoa fica com parte da magia do dragão... Eu amo muito o tio Shar!"



Cinco páginas são viradas.



"Contei para o papai que eu quero ser caçadora, e acho que o magoei. Ele até mandou o tio Wee embora de nossa casa... Mamãe chorou muito essa noite, e agora todos estão decepcionados comigo.

Tio Wee ficou muito triste, e agora se sente culpado por ter me contado suas aventuras. Ele tem três dias para ir embora, assim foram os termos de papai. Acho que ninguém aqui nunca entenderá o tamanho do mundo, nem mesmo eu...

Quando fui pedir desculpas à tio Wee, ele me deu um colar de dentes de sarde. Disse que se ele não voltasse mais, era para eu me lembrar sempre de quem me deu o colar.



Celune, mostre aos meus pais que tio Wee não é maluco. Mostre a eles que eu só quero poder ser feliz."



A página é mais uma vez virada.



"Essa noite eu e papai tivemos uma conversa muito franca. Eu disse à ele que não quero levar uma vida pacata aqui na cidade, nem me casar com algum menino idiota, para viver uma vida dedicada, cuidando dos filhos que serei obrigada a ter. Disse que se for para viver assim, prefiro me trancar o resto da vida na Escola de Magia junto com Valsha. Expliquei para ele que não nasci para ser presa nem infeliz, e que quero ter minha própria história de vida, minha própria aventura.Quero provar de tudo que a vida tem a me oferecer. Por isso, papai disse que me permitirá que eu prove de tudo, mas antes terei de provar das vontades dele, para que eu tenha certeza. Ficarei por um ano na Escola de Magia, mais outro ano na capital, com Azuth para conhecer os garotos, e mais um ano viajando com tio Shar. Se eu não gostar de nada, então meu pai permitirá que eu vá com tio Wee!

Estou muito feliz por isso, e mal posso acreditar."



Mais algumas páginas viradas.



"Estou com saudades de Valsha, já faz um ano que ela foi para a Escola de Magia, e me deixou aqui sozinha... É ruim, porque ela é minha irmã preferida. Azuth só fala do casamento, Mystra que quer noivar, e Savras eu nem vejo desde que foi pra capital com Azuth... Minha melhor amiga era Valsha, e agora eu estou sozinha. Não vejo a hora de ir passar um tempo na Escola, para poder revê-la e contar minhas novidades."



Mais páginas são passadas rapidamente.



" Esse casamento foi uma grande chatice. Azuth estava linda, e seu noivo é muito agradável e parece gostar de papai, mas o resto foi chato. Pude finalmente rever Valsha, que pode vir à festa, mas ela disse que a Escola de Magia não é tão legal quanto ela imaginava. Ela disse que passa a maior parte do tempo lendo e estudando. Disse que os mestres são arrogantes e muito exigentes.

Pude rever também alguns primos na festa, e por isso minha mãe me fez usar um longo vestido azul. Depois passou horas falando do quanto meus primos eram inteligentes, e que se eu quisesse, poderia me casar com algum deles, mas eu já disse que não quero me casar!

Agora minha família é uma família de importância. O noivo de Azuth é o melhor amigo do rei, desde a infância, e também é um soldado da elite real. Papai está muito feliz por isso, afinal esse é o sonho de qualquer pai. Não sei como Azuth, tão chata conseguiu um marido assim, afinal de contas ele é um cara muito legal, e deve ser um ótimo espadachim."



"Amanhã é o grande dia e eu vou para a Escola de Magia. Papai está tão ansioso quanto eu, e pouco parece se importar de gastar quase metade de sua fortuna para que eu fique esse ano lá. Ele deve estar realmente muito preocupado com meu futuro. Mas eu não... O que quero pra mim, e sei que meu destino é como o de tio Wee. Celune não falha, e foi ela quem me mostrou isso. Se ela quer, quem poderá impedir?"



"A Escola de Magia é realmente muito chata. O silêncio aqui é perturbador e tudo cheio de regras. Detesto regras! Mas não posso negar a beleza e organização deste lugar. Já estou aqui à dez dias e tudo que faço é visitar algumas salas, conversar com alguns mestres e caminhar pela extensão da propriedade, que mais parece uma cidade."



"[...]Hoje descobri sobre os Águias Prateadas. Confesso que fiquei maravilhada com eles. Eles são treinados na arte da luta e na arte da magia. Usam os dois ao mesmo tempo e são os melhores nisso. São muito rápidos e fortes. Dizem que somente os mais inteligentes e leais podem ser um Águia Prateada. Diferente de todos aqui, que não podem sair da Escola de Magia, eles andam pelo mundo inteiro, disfarçados e infiltrados em todos os lugares. Estão sempre atentos e de olho em tudo. Se em algum lugar do continente nasce um possível prodígio da magia, é deles o dever de identificar e levar para a Escola. Eles também tem o dever de fiscalizar o uso da magia nos outros reinos. Se algum mestre ou sacerdote faz mal uso da magia, eles quem vão levar isso aos mestres da Escola. Eles precisam estar sempre alertas para identificar o uso de necromancia ou magia obscura. Gostaria muito de ser uma Águia Prateada... É realmente uma pena que mulheres não possam seguir essa carreira. Mas se eu me esforçar e mostrar que sou valente,talvez  eu consiga convencer algum mestre."



"Saudades de papai e mamãe... A capital aqui é até bem agitada, e Azuth tem sido até bem agradável. É triste, porque ela vive sempre sozinha, com os servos em casa. Seu marido Azhab vem de tempos em tempos, e a vida dela é uma eterna espera. Não é isso que eu quero pra mim."



"Azhab é um cara muito legal. Passamos horas hoje conversando em um agradável passeio pelo bosque. Ele prometeu que me ensinaria dois golpes de espada e até deixou que eu segurasse a espada dele. Me senti realmente muito valente. Quero uma igual quando eu for caçar com o tio Wee.

No caminho de volta fiquei muito brava com Azuth. Ela armou um encontro 'casual' com um menino. Azirráh Anjhí é seu nome. Que menino tolo! "Estava caçando", ele me disse. Como se isso fosse me impressionar... É claro que Azuth contou minha admiração por caçadores. Por sorte seu irmão mais novo apareceu de surpresa, entregando à Azirráh o lanche da tarde que sua mãe havia preparado. Na hora eu mal pude me conter, e caí na gargalhada... Azuth ficou muito constrangida, e o tal Azirráh também, mas ele bem que mereceu. Um caçador que se preze, não recebe lanche da mamãe... Grande mentiroso este Azirráh!"



"Hoje a noite Azuth me obrigou a ir em uma festa na cidade. Eu deveria ir com Azirráh, mas ele é tão tolo... Ele fica se esforçando para me agradar e inventando mentiras exageradas para me impressionar. Quando contei sobre meu tempo na Escola de Magia, ele riu, como se fosse uma piada. A festa foi divertida, e a música era agradável. Azirráh me obrigava a ficar sentada ao seu lado, conversando, enquanto o que eu queria, era dançar. Foi então que eu menti a ele que precisava falar com Azuth, e me misturei na multidão que dançava aos pés dos tambores, me ocultando do menino cortês. Acabei encontrando seu irmão mais novo, e implorei a ele que não contasse à Azirráh onde eu estava. Dançamos juntos por algumas horas, e depois ele me levou para a sacada de uma casa que tinha ao redor. Lá fumamos escondidos. Eu nunca havia fumado, e foi bem divertido. O nome dele é Andi e ele é um ano mais velho que eu, e passa pelo mesmo problema. Seu pai quer que ele se case com alguma jovem da cidade, mas ele não quer. Ele disse que quer ser livre e ter uma esposa em cada cidade, uma para cada noite. Eu ri disso, e ri ainda mais quando soube que Azirráh me esperava para me pedir em noivado. Pobre Azirráh... "



"Estou machucada, e por um mês não poderei correr. Hoje cedo Andi me chamou em casa para dar uma volta de hipogrifo. Eu nunca havia montado em um daqueles, e eles são muito rápidos! Depois ele me convenceu a ir à casa do Sr. Johá com ele para roubar a famosa torta de tomate azul, afinal, estávamos com fome. Mas foi na volta, quando eu precisei pular a janela que quebrei minha perna. O Sr. Johá nos viu, e o Andi idiota, saiu correndo e não me esperou. Nem pude comer a torta, pois é claro que o velho me pegou e me deu alguns puxões de orelha. Depois chamou minha irmã, que disse estar envergonhada de mim. Maldito Andi!"



"Andi é um menino muito legal. Tem sido meu melhor amigo nesses tempos na capital. Mal sinto falta de Valsha. Essa semana que tive de ficar de repouso, ele veio me visitar por alguns dias e conversamos muito. Contei a ele todas as histórias que eu sei sobre o tio Wee, e sobre o tempo que passei na Escola de Magia. Ele adora quando eu conto histórias do tio Wee; ficou impressionado quando mostrei a ele meu colar de dentes de sarde. É claro que ele me pediu o colar, e eu acabei dando à ele de presente. Ele disse que na próxima vez que tio Wee aparecesse, gostaria de conhecê-lo, e se pudesse fugiria para viver como vive tio Wee."



"Azirráh me convidou para jantar com a família dele. Não tive opções, a não ser a de aceitar o convite, pois Azuth me obrigou. Já estou aqui a meses, e não gosto dele como todos esperam que eu goste...
Ele é bonito, mas não é o que eu quero para mim. Ele é igual a todos os outros meninos da cidade, que vivem fingindo ser adultos valentes e fortes. Aposto que eu o venceria em um duelo!
O mais divertido em Azirráh, são as piadas que eu e Andi fazemos em suas costas..."



"Acho que vou fugir de casa antes desse jantar. Estou certa de que Azirráh me pedirá em noivado na frente de minha família e da família dele, e eu não quero passar pela vergonha de rejeitá-lo. Também não quero ficar mal falada na cidade e matar meu pai de vergonha.

Eu sei que Azirráh tem boa família e educação, mas quando comentei sobre viajar o mundo, ele mandou eu parar de sonhar! Contei isso para Andi, e ele me disse que a mãe deles só quer que ele se case, porque minha família tem nome de respeito e muita fortuna. Se nossas famílias se unirem, seremos então a família mais rica da cidade, e a mais respeitada também."



"Hoje Andi me apareceu com um plano maluco, que até que fez sentido... Disse que se nos casássemos, nossos pais ficariam felizes e satisfeitos, e juntos teríamos dinheiro para fazer o que quiser, sem dar satisfações a ninguém mais! Poderíamos comprar um navio e viajar com o tio Wee pelo mundo inteiro!

Uma vez tio Wee me disse que se tivesse um navio, iria até as Terras Geladas para explorá-la, mas que estava longe de conseguir isso, afinal não tinha dinheiro para bancar. Mas se eu e Andi patrocinarmos essa expedição, com a condição de irmos juntos, estou certa que ele não terá escolhas!

Quanto ao casamento, amanhã é o jantar em sua casa, e o único modo de eu escapar de Azirráh, é estando noiva de outro. Seria como um pacto de amizade, um casamento de mentirinha... Como condição, ele me pediu para deixá-lo ter uma mulher a cada noite, e eu pedi para poder treinar espada e caçar.



Estou muito ansiosa para amanhã a noite...



Celune, me ajude. Guie meus passos, minha amiga fiel. Sei que essa é a tua vontade, então nos abençoe e me dê coragem para enfrentar os desafios dessa vida. "



"Essa foi a noite mais maluca de minha vida! Chegamos na casa de Azirráh, e fomos muito bem recebidos. Eu, Azuth e Azhab... Azirráh estava muito perfumado, pude sentir o cheiro de lavanda de longe. Me cumprimentou todo pomposo, e tentou segurar em minha mão. É claro que eu não deixei, e logo disfarcei. Não demorou muito para Andi aparecer também, e senti um frio na barriga quando ele me olhou com um sorriso debochado.

Na mesa, me sentei ao lado de Azuth e Azirráh, que fez questão de servir o meu prato. Andi sentou de frente para mim, e quase me matava de vergonha quando fazia caretas para Azirráh quando ele não via. Foi difícil segurar o riso, mas eu consegui.

A mãe deles foi muito gentil, e o Sr. Anjhí muito educado, embora fosse um homem de poucas palavras. Depois de alguns minutos de bajulações, Azirráh se levantou da mesa, e disse que tinha algo importante a dizer. Todos já sabiam o que era, mas Andi se levantou rapidamente também, e com um largo sorriso no rosto disse antes que qualquer um de nós pudesse falar: "Antes de mais nada, e aproveitando o momento oportuno desta linda noite junto de nossas famílias, eu gostaria de anunciar a todos aqui presente que eu e  Maia Terrrani estamos noivos, e claro, pedir oficialmente a mão dela em casamento!".

Eu gelei, e mesmo com as pernas trêmulas me levantei e tentei não olhar para ninguém, para não ver o espanto em suas faces. Azirráh se sentou novamente na cadeira. Sua expressão era seria e confusa. A Sra. Terrrani tentou dizer algo, mas mudou de ideia logo em seguida. Azuth me olhava tentando entender tudo aquilo, e Azhab, mesmo serio, pude perceber que sentia vontade de rir.

"Desculpem pela surpresa, mas eu e Andi ficamos muito próximos nesses últimos meses, e foi inevitável não nos apaixonarmos...". Isso foi tudo que eu consegui dizer. Azirráh se levantou e saiu da mesa. Não o vi mais pelo resto da noite. Mas o Sr. Anjhí foi muito educado e nos parabenizou "-apesar da surpresa...", como ele mesmo disse."



"Papai me mandou uma carta dizendo que está muito feliz pelo noivado. Agora chegou a hora de arrumar minhas malas e ir embora, afinal meus pais e os de Andi são tradicionalistas, e acham que os costumes do casamento devem ser seguidos à risca, por isso, depois do noivado vem a Espera, que pode durar de quatro meses à um ano. Nesse meio tempo, o noivo e a noiva não devem se ver, apenas conversar por cartas. Quanto maior for a espera, significa mais sorte para o casal. Como minha família é devota de Celune, devemos cumprir a espera de um ano.

É nesse tempo que cumprirei minha última parte do acordo com papai. Ficarei por um ano com tio Shar, cuidando dos negócios da família. Papai disse na carta que iremos até os Reinos Rochosos comprar e vender especiarias, e que tudo promete ser muito divertido."

*CONTINUA*

Se você ainda não leu a Parte 1, Parte 2, ou a Parte 3, não deixe de ler! E se você está acompanhando a saga de Maia, não pare! Tem mais em: parte 5, parte 6 e parte 7.
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3 comentários:

  1. Tô adorando a backstory da Maia, é muito legal quando você consegue combinar as lembranças do personagem com a própria construção do cenário.

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  2. Cada "capitulo" dessa história me faz apaixonar mais, consigo formular tudo na minha mente, cada detalhe segundo a descrição, isso é fantástico, parabéns!

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  3. Obrigada à vocês!

    Fico muito contente quando recebo comentários assim!

    =D

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