sábado, 1 de novembro de 2014

A Maldição da Lua Negra - Parte 1






Aqueles pés nunca haviam pisado na areia do porto de Fláêrún, um dos maiores portos do continente, com gigantes e pomposos navios ancorados, gente por todo lado, onde várias músicas tocavam ao mesmo tempo. O cheiro de mar impregnava suas narinas, e por alguns instantes a jovem se sentiu mais perdida ainda. Aonde quer que seus olhos alcançassem, ela podia ver barcos e navios, com gente de todo tipo perambulando pela areia suja. Em alguns lugares, grupos de pessoas se amontoavam ao redor de uma fogueira com pescado, enquanto outros cantavam velhas canções que seguiam o ritmo do mar.



Ela arriscou alguns passos e parou quando novamente pode identificar outra canção. Não tinha certeza se continuar a andar era a melhor escolha. Talvez o melhor fosse voltar e descer pela rua principal até chegar a casa de sua irmã mais velha. Talvez todo aquele ano praticando adagas nas aulas com o famoso Sr. Clodathan Turmik, Mãos de Prata servissem para alguma coisa quando ela assumisse toda sua fortuna e se tornasse a jovem viúva mais rica da capital.



O sol brilhava forte sobre sua cabeça, estava no topo do céu, e o mar a encarava, como se a desafiasse novamente. Esse sentimento invadiu seu corpo, fazendo-a lembrar das outras vezes que havia sentido isso. Mas agora era diferente. Agora ela estava sozinha e por conta própria. Ninguém sabia onde ela estava, e tão cedo, ninguém sentiria sua falta.


Arriscou novamente mais alguns passos, e pode ver à alguns metros uma taverna que provocou a sua fome. As pessoas ao redor pouco se importavam com a sua presença, alguns mendigos até a encaravam, outros lhe pediam esmola, mas ela continuou seguindo.



A taverna estava lotada, e somente um bardo tocava uma canção alegre. Havia no máximo vinte mesas pelo salão, todas individuais, com lugares entre quatro e seis cadeiras cada uma. Os aromas que vinham da cozinha lhe instigaram o apetite, e a péssima limpeza do ambiente não lhe fez mudar de ideia. Ela adentrou a taverna e procurou por uma mesa.



- A senhorita gostaria de um lugar? -disse uma voz feminina que vinha de seu lado.



Ela olhou rapidamente na direção da voz, um pouco assustada e encarou por alguns segundos uma mulher de pele morena, com boas vestes que lhe sorria cordialmente.



- Senhora.- a jovem menina corrigiu. - Sim, eu gostaria de uma mesa por favor.



- Desculpe, senhora. - a mulher corrigiu. - Me siga, vou mostrar onde poderá se sentar.



A mulher caminhou por entre algumas mesas. A jovem seguia encarando a todos ali dentro de modo discreto. Ela não deveria ser vista nem lembrada por ninguém. A servente andou até chegar em uma mesa, onde estava sentado com velho, com um copo de vinho vazio. A pele dele seria branca, se não fosse pelo encardido da sujeira, e suas roupas seriam aceitáveis, se já não estivessem velhas. O velho com a cabeça apoiada na mesa parecia dormir quando a mulher o chamou:



- Vamos velho. Saia já daí. Você já bebeu seu vinho...



O velho levantou a cabeça, e com os olhos semi cerrados, fez uma careta.



- Vamos, velho... Você não vai querer espantar os meus clientes, vai?



O velho se levantou resmungando, pegou a caneca de vinho e virou em sua boca, mas nada saiu. Olhou feio para a jovem, e saiu da taverna ainda resmungando:



- Negros nojentos... Mesquinhos...



A jovem se sentou à mesa constrangida pelo que acabara de ver, mesmo que isso não fosse anormal para ela. Que culpa tinha ela de nascer com sangue nobre?



- O que vai pedir? Hoje temos o prato da casa, que é feito de peixe recheado com batatas e ervas marinhas, acompanhado de licor de prata.



- E quantas moedas isso me custará? -a jovem perguntou. É claro que não era normal este tipo de perguntas quando se é negro em Fláêrún, mas ela precisava ter cuidado, afinal, ela trazia consigo apenas uma pequena e insignificante parte de sua fortuna, e não poderia gastá-la toda em uma refeição. Trouxera somente o suficiente para começar uma nova vida pelo mundo.



- Trinta e cinco dragões, senhora. -a mulher respondeu impaciente.



A jovem consentiu com a cabeça e a mulher se retirou apressada. Diferente das outras tavernas que a jovem já havia conhecido, nesta não haviam prostitutas, nem brigas. A maioria das tavernas em Zolkan eram assim. Quando os homens desejam desfrutar de mulheres, devem ir à lugares próprios para isso. Tavernas em Zolkan são lugares de respeito, principalmente em Fláêrún, que é a capital do reino, podendo o rei decidir visitar um ambiente desses.



Ela pegou sua mochila, e dela tirou um livro, uma pena e tinteiro. Colocou sob a mesa e começou a escrever.



"Estou no porto de Fláêrún. Eu nunca havia vindo aqui. Espero que os deuses me concedam sorte e que ninguém me reconheça. Estou em uma taverna, e depois daqui, procurarei por algum navio que recrute por trabalhadores. Poderei trabalhar em um navio desses, e de lá ser guiada sabe-se lá aonde o mar me levará. Aprenderei a navegar, e irei o mais distante for possível. Ninguém nunca mais ouvirá falar de mim, e quando eu estiver pronta, terei minha própria frota marítima, levan..."



A jovem fora interrompida pela mulher, que vinha com a refeição. Ela logo retirou as coisas de cima da mesa, e guardou novamente na mochila.



A comida era realmente deliciosa. Ela pode reconhecer o gosto de pelo menos três tipos de ervas que provavelmente vinham dos campos de seu pai. Depois de comer, pagou as trinta e cinco moedas e saiu novamente para nunca mais ser vista.



Lá fora, mesmo após o horário de almoço, o ritmo continuava o mesmo. Ela olhou para os navios ancorados, e tentou decidir com cuidado em qual deles pediria por trabalho. Haviam barcos pesqueiros, navios de transporte, viagem, pessoais... Grandes, pequenos, luxuosos, limpos, sujos, novos, velhos, com negros, brancos, ricos e pobres... Ela realmente tinha muitas opções, mas quem ali daria uma oportunidade de trabalho para uma jovem negra, com sangue nobre e aparência impecável?



Sem saber para que lado andar, ela tinha uma certeza: a de que não podia ficar ali parada, nem demonstrar estar perdida, ou seria logo parada por algum guarda. É claro que no porto os guardas que perambulavam eram poucos, pois a maioria ficava em postos espalhados  contornando o mar, mas ainda assim, ela não queria arriscar que alguém a visse, a final Azuth, sua irmã mais velha era casada com Azhab, o melhor amigo do Rei e um dos guardas reais, e isso tinha deixado toda a sua família bem afamada, podendo ser reconhecida a qualquer momento.



Ela caminhou um pouco mais, e logo teve sua atenção focada em uma mulher branca, com um bebê nos braços em frente a um navio. Não era muito grande, mas ao que dava a entender era um navio de viagem. Nele estava escrito: Trevo de Três Folhas. Curiosa como sempre, a jovem se aproximou e parou para escutar a discussão que acontecia entre a mulher e um homem moreno, que parecia ser o dono do navio, pois tinha boa aparência.



- Cinco moedas ou nada feito, senhora. São as regras! -disse o homem.



- Mas moço, pelos deuses... Me deixe subir. Eu não darei despesas. -implorava a mulher.



- Infelizmente não posso, minha senhora. Imagine se eu deixasse subir todos aqueles que não "me dessem despesas"?



- Compreendo, senhor. -se rendeu a mulher com os olhos cobertos por lágrimas.



A jovem se aproximou do navio, e a mulher logo implorou:



- Senhorita, por amor aos deuses, dê-me cinco moedas de esmola para que eu possa embarcar...



- Senhora... -a jovem corrigiu, sem olhar para a mulher, que não insistiu.



- Vai embarcar no Trevo, 'senhora'? -perguntou o homem de pele morena, dando ênfase em sua última palavra.



- Ainda há vagas? -ela perguntou.



- Se for para uma jovem cuja beleza se assemelhe a sua, certamente encontrará vagas em qualquer lugar.



- E para trabalho? Posso fazer a segurança do navio, ou até mesmo cozinhar. Sou muito boa cozinheira, e não há nada que eu não possa aprender.



- Hahaha... -o homem riu. - Duvido que suas mãos sejam apropriadas para este tipo de trabalho. Sem falar que não posso permitir que uma moça como você trabalhe aqui.



- E por que não? Não acha que sou capaz? -disse a jovem ofendida.



- De forma alguma, eu não disse isso. Apenas não seria bem visto uma negra tão bela trabalhando aqui.



A jovem sentia-se incapaz. Ela não era a melhor combatente, mas por dois anos havia se dedicado completamente as aulas do Sr. Turmik. Ele, além de ser o mais famoso ladino, era o melhor com as adagas, e ela estava certa de que seria capaz de lutar se preciso fosse. Mas ela não tinha muitas opções. Precisava embarcar em algum navio antes que fosse reconhecida.



- Para onde ele vai? -ela perguntou.



- Fathalla Marítima, senhora. Sai em uma hora.



A jovem pagou as cinco moedas, e caminhou até o navio que estava ancorado à alguns metros. Com muito cuidado, ela subiu no navio, largou suas coisas no chão, e se debruçou, olhando para as pessoas. A mulher com a criança continuava lá, pedindo cinco moedas a cada pessoa que passava.



A jovem caminhou novamente até o homem de pele morena, e entregou-lhe mais cinco moedas.



- Para aquela mulher. -ela disse dando as costas ao homem moreno.



- Aqui, senhorita! -ela ouviu um grito vindo próximo. - Por amor aos deuses, me deixe subir também!



Era o mesmo velho da taverna que ela havia encontrado mais cedo. Ela olhou novamente para ter certeza, e o ignorou.



- Senhorita, eu lhe imploro por ajuda! Posso lhe servir nesta viajem! Me ajude!



Aquele velho já estava passando dos limites! Todos já a olhavam, curiosos por causa dos berros do velho que estava chamando toda atenção para a jovem.



- Senhorita, são só cinco moedas... Me deixe voltar para minha Fathalla. Sei que tem bom coração, me ajude!



- Bêbado idiota! -ela esbravejou jogando cinco moedas no velho.



- Abençoada seja a senhorita! -festejou o velho.



- Senhora! -ela corrigiu.



***CONTINUA***

Gostou? Então leia A Maldição da Lua Negra - Parte 2, parte 3, parte 4, parte 5, parte 6 e parte 7 e não se esqueça de deixar seu comentário!

3 comentários:

  1. Adorando a senhorita, digo senhora Maia *-*

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  2. Volte logo 'Senhora' fiquei curiosa para ler mais sobre ti! *-*

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  3. Leitura agradável, me deixou curioso sobre a personagem e o lugar em que se passam suas aventuras. Vou seguir acompanhando ^^

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