segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

Pensamentos para o caminho da morte - Lunah


Quem diria... Logo eu, morrendo agora. Eu sabia que isso ia acontecer, sabia que seria hoje, dessa maneira, com esse dragão.

Confesso que parte de mim se sente feliz, pois talvez depois de morta, eu recupere minha dignidade e possa ser lembrada com honra.

Honra... Essa palavra tão desconhecida pra mim durante minha vida toda agora soa com orgulho.

Ele é grande, realmente muito grande! Maior do que eu imaginei... Mas digo que não tremerei diante dele, o maior dragão que já pisou nesse continente. 

A maioria das pessoas achavam que ele nem existia, que era mito, lenda, canção de bardo. Mas agora eu estou na frente dele, posso ouvir sua respiração em meio aos gritos e explosões dessa batalha que será épica, relembrada por gerações que não verei.

E eu morrerei daqui a alguns segundos. Espero que eu não sofra, que eu não sinta dor. Por sorte Anadon não está aqui, vendo isso. Ele tentaria me impedir, me salvar. Meu maior medo nisso tudo era perder ele nessa batalha. 

Hoje de manhã eu coloquei sonífero no vinho dele e dei para ele beber. Não queria que ele fosse lutar, preferi que ele ficasse dormindo. Ele bebeu, e adormeceu, mas logo me senti suja e corri para pegar o antídoto. Por sorte ele não está aqui agora...

Vejam, deuses de bosta! Veja Flaerún, seu melhor e mais fiel clérigo caindo diante desse dragão que um dia tu enfrentaste! Veja o rosto dele inchar até explodir com o martírio! Veja o homem mais odiado se sacrificar pelo povo que um dia tu abandonou! Ele é um herói! Que o nome de Talude seja lembrado pelo resto dos tempos. Ele não só sacrificou sua vida, mas também sua morte, seu paraíso. Hoje você vê ele lutar em nome dos próprios inimigos, amanhã verá ele ser torturado pelo senhor dos infernos. Estarei lá em breve também, e juro, vou dar risada da cara de Zaz quando for a minha vez de ser torturada.

Talude acabou de ir... Levei ele até dentro do dragão, mas errei o coração. Mesmo assim ele tentou o martírio, e o maldito Zalgo ainda está de pé, batendo asas e matando legiões com pouco esforço. Mas eu vou! Vou dar um salto com a espada e entrar dentro do coração desse maldito! Morrerei junto com ele, e salvarei Anadon e o resto do mundo.

O chão está manchado de sangue por todo lado, o céu coberto de grifos carregando os elfos mais puros desse continente. Lembro de Vrill, um deles... O melhor Riodahn que conheci. Lembro do dia em que nosso barco naufragou, e ele deu sua vida pela minha. Sempre guardarei isso em meu coração. Eu o abraçaria e agradeceria se um dia eu fosse para o paraíso, mas não... Meu destino é Zaz. Como disse Anadon certa vez: “Não importa o quão bem fazemos. Os deuses não se importam. Nosso destino é com Zaz”.

Saudades de Mitaro... Queria que ele me visse nesse momento, e eu o ensinaria como é que se faz uma verdadeira burrice! Eu vou me matar, mas salvarei a todos por isso. Esse idiota não, ele fazia burrices que só prejudicavam a ele mesmo. Queria poder dizer a ele o quanto eu sinto falta das noites em que íamos para as tavernas beber e roubar anões bêbados. Sombra era meu nome, e o dele Escuridão. Sombra e Escuridão... Saudades desse tempo. Eu era tão pequena quando o conheci... Quase o matei no dia que entrei naquela casa pela noite em busca de um baú cheio de moedas. No corredor, me deparei com um menino franzino, olhos assustados iguais aos meus. Puxei minha adaga e quase o acertei, mas com o barulho, o dono da casa acordou e nos pegou em flagrante tentando roubá-lo. Nós o matamos... E depois disso, juramos nunca mais nos separar. Por muito tempo não nos separamos, mas a loucura dele foi quem o destruiu... E destruiu parte de mim com a indiferença que nasceu e cresceu aos poucos. Mas agora, olhando para esse dragão, posso dizer que sinto saudades.

Depois que eu entrar, estarei na lista de mortos, com meu nome ao lado dos verdadeiros heróis: Talude, Dimitri, e quem mais que já tenha caído. Nunca busquei isso, sabe...? Sempre soube e aceitei a humanidade que existe dentro de mim. Como certa vez disse o Rei de Aziót: “Existem humanos que parecem elfos, e elfos que se comportam como humanos”. Sei que não era a mim que ele se referia naquele momento, mas aquilo tocou em mim. Sempre admirei Vrill, Faraún e até mesmo a Dimitri por serem assim, ‘tão elfos’, e eu não. Mas depois que conheci Anadon entendi que eu sou assim e ponto.

Quando encontrei ele, percebi que tinha encontrado alguém como eu, e eu amava esse outro alguém. Eu não podia ser tão ruim assim então. Mesmo mentindo o tempo todo, enganando, traindo aqueles ao meu redor, nunca fiz nada disso por mal.

É agora! Encontrei uma boa posição de Zalgo. Estou segurando minha espada, espero que Caius entenda. Respiro fundo, miro no coração... Fecho os olhos e lembro de Anadon e Daerguel. Quero que eles sejam minha última lembrança... Eu salto para dentro do coração da besta.

O tempo parece que parou para mim. Posso ver o rosto de Vrill sorrindo no alto daquela montanha enquanto eu e ele confeccionávamos flechas. Vejo Daerguel preso em uma gaiola no alto de uma caverna e eu o soltando, pois criatura nenhuma merece ser presa! Ele pousa em meu ombro, e todos invejam o amor entre uma elfa e seu pseudo-dragão. Vejo Anadon fazendo uma promessa: “Se eu sobreviver a este deserto, prometo fazer tudo que tenho vontade”. Logo depois, ele está vivo, e então me beija...

Estou dentro do coração. “Nunca salte para lugares que não conhece... Você pode ficar presa em algum lugar e até morrer!” disse Anadon uma vez. Que ironia... Estou fazendo isso de propósito! Eu sinto dor, mas não física. Dói saber que nunca mais o verei...

Posso me ver em Arzenóth... Acabei de chegar na cidade e sei que Anadon espera por mim em uma pousada na taverna. Estou ansiosa para vê-lo e mostrar que estou viva. Entro correndo na taverna e subo as escadas de madeira. Bato na porta freneticamente, e ele abre. O elfo de cabelos longos, loiro, com tranças na frente e olhos brancos abre a porta e sorri quando me vê. Ele me beija pela segunda vez, feliz. Tranca a porta e nos amamos pela primeira vez. É mágico, é incrível. Eu sabia que ali eu havia encontrado a maior fortuna que podia existir. E ele me fez feliz pelo resto de meus dias. Até o fim.

Eu seguro Caius com força. E sinto ele dentro de mim. Estou indo... Eis meu último, e único ato digno de honra: minha morte. Morra, dragão maldito! Morra para sempre!


Anadon, Daerguel, Ark e Kiara... Adeus!

Nenhum comentário:

Postar um comentário