segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

O chamado tardio


A noite estava calma, mais calma do que nunca. O vento soprava levemente contra a barraca no alto de uma montanha. Aquela noite não fazia frio, nem calor, e isso incomodava o sono do elfo que tentava adormecer. A sensação da insônia era comum devido a idade que já havia chegado. Por um instante, teve a impressão de não estar sozinho naquela barraca, e abriu os olhos repentinamente. Respirou fundo e sorriu.

Levantou-se com dificuldade, suas costas doíam. Apoiou-se em seu cajado, e caminhou sem pressa em direção a parte mais alta da montanha.

A fogueira no chão estava quase apagando, mas ainda aquecia a todos elfos que dormiam em volta dela. Seu andar era mais lento. Caminhava com as costas curvadas, os longos cabelos castanhos caíam sob seu rosto coberto pela idade.

A brisa noturna batia no manto marrom feito de couro e movimentava-se junto com os longos cabelos que batiam quase na cintura do velho elfo.

Ele subiu com dificuldade até o topo da montanha, como se estivesse atrasado para algo.

De longe, ele viu uma silhueta na escuridão da montanha. Estava sentada, com as pernas cruzadas no chão, admirando o horizonte vazio. A silhueta não se moveu quando ele se aproximou sorrindo. Os negros cabelos ondulados dançavam com o vento.


- O vento mudou, não acha? –a voz feminina disse.

- Depois que você foi, muita coisa mudou. Mas o vento ainda sopra na mesma direção. –disse o velho elfo, com a voz enfraquecida.

- A direção é a mesma, mas o vento não. Sinta, ouça o que ele diz. –respondeu.

- Você demorou muito dessa vez... –disse o velho, sentando-se ao lado da moça.

Ele tocou o rosto dela com as mãos, para que pudesse vê-la melhor e depois sorriu com lágrimas nos olhos enrugados. A jovem humana era tão bela aos olhos dele... Pele branca, macia. Olhos tão azuis quanto o céu. Lábios corados, bem definidos. Uma beleza selvagem e delicada ao mesmo tempo, que o elfo nunca esqueceria.

- Senti muita saudade, Dimitri. –disse desabafando um choro.

- Eu sempre estive aqui, Bar-Cóleron. Sempre... –ela respondeu.

- A idade me consumiu lentamente. Pensei que seria mais rápido do que foi. –ele disse.

Ela vira para ele, e o abraça com carinho, ainda observando o horizonte. Os dois ficam em silêncio por alguns minutos.

- Olha! –ela disse, apontando para o céu. – É Celune...

O céu estava limpo, sem nuvem alguma. As duas luas iluminavam a imensidão. Celune, a lua maior estava coberta de estrelas, que brilhavam intensamente, como se estivesse sendo coberta por um milhão de vaga-lumes.

Bar-Cóleron olhou, e admirou o evento, que acontecia a cada quatro anos. Diziam que era quando Celune, a lua maior chorava por perder seu filho querido.

- Veio ficar aqui comigo, Dimitri? Ou eu estou sonhando? –ele perguntou confuso.

- Lembra de quando nos conhecemos? Acho que você me odiava! –ela disse deitando a cabeça no colo do velho elfo, que ficou calado. – Acho engraçado o modo como a Deusa faz as coisas acontecerem... Seu silêncio falou comigo de modo que tocou a minha alma e o meu coração. Seus gestos e seu amor pela Deusa me conquistaram.

O elfo passava a mão envelhecida pelos cabelos da jovem humana enquanto ela falava. As vezes uma ou duas gotas de lágrimas caíam e molhavam os fios.

- Lembra-se de quando nos beijamos pela primeira vez? Foi a sensação mais plena que já tive. E quando nos amamos naquela noite, senti medo de tirar sua eternidade. Mas... De que adiantaria viver, se não fossemos livres e não pudéssemos sentir o amor? – ela dizia com a voz doce.

- Lembrei de todos os dias dos anos que passamos juntos, desde que você se foi. Sabia que você estava comigo, via você no voo dos grifos, no coração de Killua, na inocência do olhar de uma criança, nos jovens que brincavam na cascata. Sentia você nas minhas orações, e no amor que vinha da Deusa. Quando eu via a pantera, sabia que era você, e por isso não me sentia tão só. Mas os dias começaram a se delongar. É verdade... O vento mudou...

- Um Riodahn nunca morre. Não preciso lhe dizer isso. –ela disse.

- Eu sei...

- Olha nosso povo. Ele mudou junto com o vento. Os jovens viraram adultos, e novos jovens apareceram. Um dia a gente foi como um deles, e hoje somos dois anciões. –ela disse sorrindo enquanto se levantava. – Venha, Cóleron. Tem lugares lindos que quero lhe mostrar, e nossos irmãos querem te receber.

- Então essa é a minha hora?

- Sim, meu amor. Eu vim para que ficássemos juntos com a Deusa.

- Selá! –ele respondeu enquanto segurava a mão dela.

Bar-Cóleron deixou seu cajado no chão e levantou. Dessa vez não sentiu dor, nem o peso de sua idade. Juntos caminharam até a floresta, onde os olhos de Killua o perderam de vista, com um sorriso doce no rosto.

4 comentários:

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    1. Obrigada!

      Até eu, que escrevo me emociono com essas histórias.

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  2. Relembrar dessa história me traz uma sensação inexplicável ♡

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    1. Que bom, Rayssa!

      Comentários como o seu me motivam mais e mais!

      =*

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