segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

O doce sabor do vinho - Parte 1


O sino da cidade executava seu trabalho com perfeição todos os dias, badalando às seis horas da manhã na cidade de Zigurat. Do céu, caia uma chuva fininha, o inverno se aproximava aos poucos, e cada vez mais as pessoas ficavam dentro de suas casas.

Zigurat sempre fora conhecida como cidade militar. Como ficava na divisa, já havia pertencido ao reino de Aziót, e ao reino de Galiót. Agora, ela pertencia ao rei Ark. Mesmo sendo uma cidade pequena, era bastante disputada por ter um ótimo subterrâneo, que podia ser usado de várias maneiras, mas Ark, desde que assumiu poder na cidade, fez do subterrâneo um posto militar de elfos, devido a aliança que tinha com Aziót.
Ark acordou, vestiu o manto que estava pendurado em uma arara de roupas, lavou o rosto com a água de sua banheira, pegou seu amado cajado e desceu as escadas da torre em direção a sala de reuniões para tomar seu desjejum.
***
Lunah abriu os olhos, se espreguiçou na cama e acariciou seu pseudo dragão, que dormia nos pés da cama. Depois disso passou a mão nos cabelos longos do elfo Anadon para acordá-lo:
- Vamos subir? –convidou Lunah.
- Aqui está tão bom... –respondeu Anadon ainda sonolento.
- Eu sou a Mão do Rei... –disse Lunah levantando da cama.
- Como se isso fosse grande coisa... –ele desdenhou voltando a fechar os olhos.
Lunah caminhou até o espelho e penteou seu cabelo com cuidado. Depois caminhou até a banheira, lavou o rosto e vestiu-se com um lindo vestido verde escuro, da cor da bandeira da cidade.
- Vamos, Don... Levante. É muito chato tomar café sozinha... Sem falar que hoje temos que interrogar o homem que planejou contra o Ark.
- Verdade... –Anadon respondeu com tédio enquanto se levantava.
Enquanto Anadon se vestia, Lunah penteava os cabelos dele. Eram claros e longos, como os dela. Depois ela trançava o cabelo dele, com uma trança fina que ficava a frente de suas orelhas. Ela gostava quando ele trançava os cabelos daquele jeito, foi com o cabelo assim que ela o conheceu.
Depois disso os dois fecharam a porta de madeira de seu quarto, e subiram as escadas da torre em direção a sala de reunião.
* * *
Kiara acordou com o corpo dolorido. Já fazia uma semana que ela dividia uma cama de solteiro com o bardo Soule. Ele era magricelo, mas mesmo assim, dormia com despojo, empurrando Kiara para fora da cama, e empurrando o a bochecha da elfa com os pés.
A vida do bardo estava prometida ao melhor assassino do continente, o Fênix Negra. Ele era famoso por matar suas vítimas sem deixar sinal nenhum: nem sangue, nem luta, nem cortes, nem machucado, nem veneno. Depois, o assassino deixava uma pena de fênix negra sob o cadáver, para assinar o crime.
Kiara estava com medo de perder seu melhor amigo, por isso dormia com ele, nos pés da cama, afinal, o bardo era inofensivo, incapaz de matar uma mosca!
Kiara se levantou sem medo de acordá-lo. Caminhou até a janela para ver se ainda chovia. Depois vestiu-se com um sobretudo verde e caminhou até a cama.
- Soule... –ela disse enquanto sacudia o menino. –Vá tomar café, seu desnutrido!
O bardo abriu os olhos com dificuldade, fez uma careta e virou para o lado, voltando a dormir.
Era normal esse comportamento: ele dormia até tarde, e passava a noite tocando seu bandolim.
Kiara suspirou e resmungou enquanto caminhava até a porta:
- É um vagabundo mesmo...
* * *
A sala de reuniões estava mais quente que os quartos, devido ao fogo do fogão a lenha no canto, que exalava um agradável cheiro de carvalho queimado. Uma mesa retangular de carvalho com doze lugares ficava bem no centro da sala. A sala era enfeitada com artesanatos vindos de Fathalla. A mesa estava farta, com frutas, carne, queijo, pães, vinho e hidromel.
Ark já estava sentado na ponta da mesa, como de costume quando Kiara entrou, e se sentou ao lado dele. Cerca de dois minutos depois, Lunah e Anadon chegaram também. Lunah se sentou ao lado de Ark, e Anadon ao lado de Lunah.
Todos os dias eles faziam isso: tomavam o desjejum juntos na sala. Diziam que isso que fazia deles uma família. Era naquele dia de manhã que eles faziam planos e conversavam.
- Então... Qual o plano para hoje? –perguntou Anadon, como costumava fazer todas as manhãs.
Ark bebeu um gole de vinho, depois olhou para Lunah, buscando uma resposta.
- Pode me passar o queijo? –Lunah pediu para Kiara. – Não sei... Não temos que interrogar o prisioneiro? –Lunah respondeu para Ark.
Anadon pegou o jarro com hidromel e serviu um copo com o líquido.
- Vai beber hidromel logo pela manhã, Anadon? –disse Lunah para o elfo antes dele levar o copo à boca.
- Nem me fale... –disse Kiara com desagrado. – Estou morrendo de dor de cabeça.
- Porque será? Talvez seja porque você bebeu ontem até cair! –respondeu Lunah.
Anadon jogou o hidromel do copo pela janela da torre, e serviu vinho para ele e para Lunah.
- Ark, onde estão os comprimidos que o Tranca Dupla deixou para nós? –perguntou Lunah.
- Estão aqui. –disse Ark colocando comprimidos espalhados na mesa.
- E para que eles servem? –perguntou Anadon. – Sabe o efeito de todos eles?
- Este aqui é chamado de força de Táurus, este é cinza de fênix, este outro aqui é um anti toxina, este outro tem elixir, brebagem, pedra de alma líquida, e este aqui é um relaxante, deve ser para arqueiros. –explicou Ark.
- Deixem eu ficar com este aqui de pedra de alma... Vai me ajudar a repor magia. –disse Kiara pegando um comprimido. – Tenha um desses sempre você também, Ark.
Ark concordou com a cabeça.
Lunah pegou o resto dos comprimidos e disse:
- Deixe eles comigo. Se precisarmos, com um salto eu posso administrá-los em vocês com mais facilidade.
- Lunah... –disse Anadon em idioma élfico, quase sussurrando. –Não me sinto bem.
- O que você está sentindo? –ela perguntou.
- Estou tonto... Não sei dizer.
- Também me sinto estranha, estou enjoada. –disse Kiara.
Ark ficou calado, e aos poucos, Lunah começou a se sentir estranha também. Era como se estivesse ficando bêbada.
Kiara olhou para todos, e sua cabeça caiu sob a mesa de madeira. Anadon olhou para o copo de vinho, e jogou ele no chão.
- Fomos envenenados... –ele disse enquanto tentava se levantar da cadeira.
Lunah sentiu suas pernas adormecerem, e quando tentou se levantar, caiu no chão.
Anadon caiu logo em seguida.

Ark sentia o mesmo, mas preferiu não dizer nada. Sua visão estava turva, seus sentidos distorcidos, mas ainda assim ele conseguiu caminhar até a porta e fechou ela por dentro com a tranca. Depois tentou gritar, mas sua voz, por mais esforço que fizesse, não saia. Ark caiu logo em seguida no chão.

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