quinta-feira, 14 de novembro de 2013

O beijo de Celim




"Estou sentada no topo da montanha ao lado de Leório, o elfo com olhos de águia. Não conversamos, não falamos nada. Eu apenas observo o horizonte com ele. Ele olha pra mim e sorri docemente como sempre fazia. Era o sorriso mais inocente, como o de uma criança. Eu retribuo o sorriso, apenas o admirando, matando a saudade que tenho, mesmo sem saber que estou com saudade.

Ele volta a olhar a frente e continuamos a observar o infinito juntos por alguns minutos, até que ele vê alguma coisa; eu sinto. Percebo que o coração dele acelera, e ele sente um frio na barriga. Sinto o estômago dele embrulhar, como se estivesse sendo virado ao avesso. Eu também vejo, como se estivesse dentro dele. De repente ele não está mais lá, é como se eu fosse ele. Vejo um homem de armadura se aproximar. Seu rosto está coberto por um lenço preto. Eu sei quem é, eu sinto, mas ao mesmo tempo sinto o frenesi de uma batalha.

Eu levanto, empunho meu arco, miro e atiro. Não estou mais no topo da montanha, estou a alguns metros de distância, o suficiente para acertar. Estico a flecha no arco e solto. A flecha dispara em direção a cabeça do homem, que se esquiva quase inutilmente. Acerto o lenço que cobre seu rosto. O lenço descobre parte de sua cabeça, o suficiente para eu ver a cicatriz.



- Celim! –eu grito.

Eu tremo. Solto o arco no chão e corro em direção a ele. Sinto novamente meu estômago embrulhar. Ele me olha e sorri enquanto descobre seu rosto por completo. Ele se aproxima de mim e me beija. O mundo para.

- Fique comigo... Não se esqueça de mim, Dimitri. –ele diz.

- Não posso Celim. –eu respondo.

- Mas você não me ama? Estou aqui. Não tinha mais motivos pra viver, mas agora eu tenho você. É você a razão da minha vida!

Bar-Cóleron está me olhando de longe. Vejo que está desagradado, eu sinto.

- Entenda... Eu te amo, sempre amei. Esse beijo... Sonhei com ele por anos, e agora eu tenho. Nunca me esquecerei de você. Seu amor... Ele continua aqui, guardado, dentro de mim. Ele ficará pra sempre aqui.

- Dimitri... Você está... diferente. –ele diz.

- Estou velha, eu sei. Mas meu amor por você nunca envelheceu, e isso porque ele está guardado em meu coração. Por favor... Não quero que esse amor cresça e envelheça como eu. Deixe ele aqui. Eu prometo, ele está seguro.

Eu olho para Celim mais uma vez e caminho. Já estou ao lado de Bar-Cóleron novamente, como se fossemos dormir. Olho para ele sem culpa. Ele corresponde o olhar sem ressentimentos e nos entrelaçamos em profundo e inocente amor."

Acordei subitamente naquela noite com a voz de Bar-Cóleron:

- Dimitri, acorde... –ele dizia. – Foi só um pesadelo...

Sonhar com Celim não era ruim. Era bom... Ao menos em meus sonhos eu podia vê-lo. Depois que ele morreu, sabia que o sonho era um presente da Grande Mãe, para que eu pudesse, mesmo fora da realidade beija-lo.

Bar-Cóleron é tudo pra mim. Não me sinto culpada, ele sabe quando eu sonho, sente o que eu sinto. Ele nunca foi minha segunda opção. Por isso, depois que eu sonho com Celim, sempre beijo Bar-Cóleron, pra que ele sinta também o que eu sinto quando o beijo. Celim era um homem. Sempre vi ele assim, e somente assim. Um homem por quem me atraí, e que foi também um grande amigo. Mas Bar-Cóleron... Cóleron é meu irmão, meu pai, meu amado, meu filho... É difícil comparar, pois nenhum supera o outro; mas o que sinto por ele vai além de um desejo, além do que se pode descrever. Meu amor por Bar-Cóleron é um amor que vai além da compreensão dos deuses.



E Celim... Continuará sempre guardado em meu coração, onde nunca envelhecerá. Ele será sempre meu primeiro amor.

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