segunda-feira, 7 de outubro de 2013

Viagem às Terras Geladas - Parte 1


A costela quebrada de Lunah dificultava sua respiração. Seus olhos inchados de tanto chorar miravam agora para Vrill, que estava deitado de tanta dor que sentira antes. Lunah pensava na burrice que tinha feito em correr para dentro das vielas da cidade de Meridiana para tentar se esconder do ataque aéreo de grifos, que jogavam pedras por tudo, destruindo casas e tudo mais que havia na cidade. Se tivessem corrido para um lugar aberto, talvez não tivessem sido soterrados por escombros. Lunah fitava o elfo e lembrava do momento em que ele conseguiu escapar, mas se recusou a soltar a mão dela, e por isso fora atingido também. Lunah lembrava de só conseguir sentir a mão dele que segurava a sua e apertava como sinal de que estava ali. Aos poucos a mão dele começou a parar de apertar a dela, e depois de algum tempo, perdeu a força por completo. Lunah não conseguia gritar. Seu pequeno dragão estava imóvel dentro de sua blusa. Lunah estava incapaz de fazer qualquer coisa.
Daerguel, o pseudo dragão agora dormia no colo de Lunah. Antes, logo após entrarem no barco para fugir do ataque, ele estava morto. Lunah chorou tanto pela perda de seu maior companheiro. Para ela, ele não era só um animal de estimação. Ele era seu amigo, seu parceiro, confidente.
- Mitaro, por favor... Traga ele de volta!!! -ela implorava para seu amigo.
- Não tem o que fazer... Ele morreu, aceite isso! -ele dizia com pena da elfa.
- Não! Ele não pode morrer! O que vai ser de mim sem ele?
Mitaro era um paladino de Pelor, o deus do sol. Sua pele queimada e distorcida contrastavam com o sol desenhado na carne de sua testa. Ele, em suas meditações costumava enxergar a alma dos seres e caminhava por eles. Mitaro pegou o corpo ainda mole do dragãozinho e colocou em seu colo. Fechou os olhos e ficou um bom tempo sem dizer nenhuma palavra. Lunah chorava sem parar. Demorou alguns minutos para que o dragão voltasse a respirar, e aos poucos abrisse os olhinhos. Lunah quando percebeu correu e abraçou Daerguel, enchendo-lhe de beijos. Lunah sentia-se tão aliviada e feliz, que mal agradeceu a Mitaro pelo feito.
Agora estavam em um navio, e estavam a deriva. Ark estava sentado na parte mais alta do navio ao lado de Mão Negra. Kiara dormia encolhida no chão.
- Ark. Me ajude a subir aí com vocês... -disse Lunah depois de verificar como estava Vrill.
Passaram algumas horas, e já estava anoitecendo. Por sorte o navio estava carregado com provisões. Depois que a noite caiu, trouxe com ela uma forte ventania...
- Vai chover! -gritou Mão Negra.
Mitaro acordou Kiara e ajudou Vrill a se levantar. Todos foram para a parte coberta do navio e se trancaram lá dentro, menos Ark e Mão Negra, que mesmo chovendo, continuavam lá em cima.
O navio sacudia muito. Lunah parou ao lado de Vrill que estava calado a horas e segurou em seu braço. O elfo olhou para ela e esboçou um sorriso forçado.
- Está muito machucado? -ela perguntou baixinho.
Vrill fez que não com a cabeça, mas Lunah sabia que ele estava mentindo.
Cada vez mais o navio balançava, e em certos momentos, todos tinham a certeza de que ele viraria ao contrário. Quando menos esperavam, o navio começou a se chocar com pedras. Eram pedras de gelo, percebeu Ark em meio aos relâmpagos que iluminavam tudo. Isso era bom. Significava que estavam chegando nas Terras Geladas, lugar onde Lunah tanto queria ir.
A cada pedra que o navio se chocava, todos eram jogados uns contra os outros.
- Pulem!!! -gritou Mão Negra para todos. - O navio será destruído!!! Pulem!!!
Lunah olhou para Vrill, depois para Kiara e Mitaro como se buscasse a solução nos olhos deles. Todos estavam assustados, sem saber o que fazer.
Lunah se precipitou até a porta e tentou abri-la, mas não conseguiu. Talvez pela água que ja estava alta dentro do navio, ou talvez estivesse emperrada devido as pancadas de pedras congeladas que o navio sofrera. Lunah olhou para Mitaro e Kiara, abraçou Daerguel, segurou a mão de Vrill com força e arriscou um salto de espada em direção ao mar.
Se tivesse dado certo, Lunah e Vrill sumiriam de dentro do navio e apareceriam na água do mar. Mas não deu, e o barco se chocou de vez.
Ninguém sentiu dor. Ninguém viu nada. Apenas foram tomados pelo imenso vazio que era o de estar mortos.  

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