segunda-feira, 7 de outubro de 2013

A morte de Soule.


 Começava mais um dia em Zigurat. E acordados pelos primeiros raios de sol e badaladas do sino da cidade, o grupo começava a se pôr de pé.

''Iam até a sala de reunião. Onde todos os dias tomavam juntos o café da manha, discutiam quais seriam seus próximos passos e brincavam uns com os outros. Era o único momento do dia em que todos se reuniam, como uma família de verdade e isso significava muito para todos eles.''

  Já estavam todos na sala, menos Trúvalum e Soule. Um sabíamos onde encontrar, e o outro ainda dormia. E como era um comportamento normal da parte deles, ninguém do grupo pareceu ligar e começaram a beber e comer.


- Não beba Hidromel! - Advertiu Lunah ao ver Anadon levando um copo deste a boca. - Ontem alguém embebedou a coitadinha da Ada, ela está desmaiada até agora, né Kiara! Não precisamos de outro bêbado. - Encerrou Lunah, fazendo o elfo jogar seu copo fora e troca-lo por um de vinho.


- Se quer saber a elfinha adorou. Precisava ver a alegria dela. - Respondeu Kiara em meio a risadas, levando um copo de vinho a sua boca também. 


  Mas o clima descontraído e o sorriso nos lábios dos amigos logo murchou ao lembrarem de ontem. A cidade ainda estava em luto. Seu amigo taberneiro estava morto, assim como o Henry e outros cinco inocentes. Tranca os havia deixado, Guilford e Killmenow também. Mais um vassalo e mais um amigo que partia, pouco a pouco a família ia desmoronando. Se permitir sorrir num momento desses até parecia um insulto.


 E por isso resolveram brindar: ''Um brinde aos que se foram e outro aos que continuam''.

  Conforme a conversa e bebida iam rolando. Começaram a se sentir estranhos. Primeiro com uma leve sonolência, depois passando a uma tremenda exaustão. Até que um a um foram desmaiando. A primeira a cair foi Kiara, para espanto dos demais e sem conseguir fazer muito mais que isso Anadon, Lunah e Mitaro caíram logo atrás. Ark tentava resistir, embora seu corpo não aguentasse por mais muito tempo. O último impulso do humano foi trancar a porta e assim desabar de vez.
  Horas depois acordaram. Suas cabeças latejavam. A porta estava arrombada e a sala revirada. Suas algibeiras haviam sumido juntamente com o cajado do Ark, para desespero do mesmo.
  O franzino rei saiu disparado da torre, seguido por Kiara. Na hora nenhum dos dois pensava em nada, só em pegar o culpado disto. Falaram com os oficiais, pedindo se havia entrado alguém estranho na torre, nada. As únicas pessoas que entraram são as mesmas que entram todos os dias. Não podia ser nem um deles. Ark continuou a procurar pela cidade. Enquanto Kiara voltou a sala e contou o ocorrido a todos. Mitaro se levantou em seguida e foi atrás de Ark ajudar na procura.

- E o Soule como está? - Perguntou Anadon.
- Dormindo para variar, mas vou chama-lo. - Disse Kiara, enquanto se retirava e ia ao quarto deles.

  Ao abrir a porta e olhar a cama, percebeu que o pequeno bardo ainda dormia. ''Mas é um vagabundo!'', pensou a elfa chegando mais perto.
  - Vamo acorda Soule. - Dizia enquanto sacudia suas cobertas. Mas ele nem se movia. - Soule, deixa de ser preguiçoso. Levanta! - gritava Kiara, enquanto dava leves pontapés no amigo. Nada! 

  A elfa ficou desesperada, sabia que ele possuía sono pesado, mas sempre acordava depois de um ou dois chutes geralmente.

- Soule, acorda, Soule! - Até que ela se abaixou e botou o ouvido em seu peito. Foi quando descobriu que não havia mais batimentos e ele já não respirava. Ao seu lado havia uma pena...

- Não, não é possível. - Tentava falar em meio as lágrimas. Ao mesmo tempo administrava com dificuldade uma cinza de fênix. Esperou por alguns segundos que foram os mais longos de sua vida e pra sua decepção, nada. Tentou ressuscita-lo, mas fracassou novamente. A elfa chorava em cima dele e gritava por seu nome, pedindo para que ele parasse de brincar e acordasse de uma vez.
  Anadon, Ada e Lunah vieram logo atrás e vendo a cena não puderam conter as lágrimas.

- Ahh não. - Foi tudo o que o elfo disse enquanto corria até o corpo e o trazia pra perto de si.

Lunah correu até Kiara tentando consolá-la. Mas esta estava inconsolável. Nunca pensou que um dia se sentiria tão infeliz, nunca pensou que alguém pudesse sentir tanta dor. Na verdade ela nunca pensou na possibilidade da morte de seu amigo e nem como reagiria se isso acontecesse.


  Ela conhecia esse menino há tão pouco tempo, como podia ter se apegado tanto a ele?
Ela que já havia visto sua família morrer bem na sua frente, sua melhor amiga ir embora, seus amigos serem mortos, e dias antes o homem que amava a deixa-la. E em nenhum desses momentos sentiu metade da tristeza que sentia agora. Era como se uma parte dela tivesse ido embora, e a única coisa que sentia era dor e um vazio imenso. O que seria dela sem ele? Como continuaria a viver, se o seu único motivo de seguir em frente estava gelado em seus braços agora?
  Mas afinal, o que ela sentia por ele? Isso acho que nunca descobriremos. Talvez nem mesmo ela saiba, ou talvez soubesse e estivesse esperando o momento certo pra dizer e agora... bom agora é tarde demais pra qualquer coisa.

  Todos sabiam que um dia isso iria acontecer, era a obrigação deles cuidar do Soule. Mas já andavam juntos a tanto tempo e nunca havia acontecido nada. Como podiam imaginar que justamente naquele dia, numa manhã tão linda e ensolarada como aquela o Fênix fosse atacar?

-Não, ele não morreu, só está dormindo, olha. Eu vou trazer ele. - Dizia aos prantos, enquanto empurrava Anadon e abraçava o corpo sem vida do amigo.

-Kiara, o Soule morreu, aceite.

- NÃO, O SOULE NÃO PODE MORRER! QUALQUER UM, MENOS ELE. CARAMBA, É O SOULE GENTE. QUAL O PROBLEMA DE VOCÊS?!

- Amiga, vem aqui comigo. - Lunah a chamava com os olhos cheios de lágrima.

- NÃO! Eu vou trazer ele. - Disse com segurança, enquanto limpava suas lágrimas e botava o corpo dele na cama. Ajeitou-o de lado, como se ainda estivesse dormindo. Em seguida saiu da torre.

- Kiara volta! O que você vai fazer? - Lunah e Ada vinham logo atrás. Correram para alcança-la e conseguiram prender a elfa pelos braços.

- Eu vou até o Guizo, eu vou trazer ele de volta. Se tu conseguiu com o Anadon porque eu não conseguiria?

- Porque você já fez seu pedido aquela vez, lembra? Não é mais bem vinda no deserto. Vai acabar morrendo.

- Não me importa. Eu vou do mesmo jeito! - Dizendo isso, se soltou das elfas e continuou a correr.

- KIARAAA!!

Depois de alguns minutos procurando, encontrou o homem careca que havia prestado serviço a ela dias antes. Tentou negociar com ele, precisava de uma escolta ate o deserto, mas o homem não fazia. Depois de muito insistir a elfa saiu emburrada e decidiu que iria sozinha mesmo.
 Lunah ainda estava atrás dela. Precisava impedi-la, ela iria se matar.

- Me escuta. A gente vai dar um jeito, só não vai embora. Tu não ta pensando direito.

- Me consiga um grifo, rápido! - Ordenou a elfa de cabelo rosa enquanto hipnotizava a amiga.

- É pra já. - Respondeu Lunah contra a vontade, enquanto já ia acenando pra um dos guardas.

E no instante seguinte, tudo se apagou ao redor de Kiara e ela caiu desmaiada no chão.
Havia sido Anadon que a imobilizou com um golpe de sua espada.

- Obrigada. - Agradeceu a elfa Lunah.

- Vocês dizem que eu não preciso mais proteger o Soule, e o deixam morrer, é isso mesmo? - Gritava Trúvalum furioso, em meio a lágrimas e carregando o pequeno em seu braços.

- Fomos dopados, não tivemos culpa. - Tentavam se justificar. Mas em um momento desses não existem desculpas e também nada que possa ser dito. A única coisa que se pode fazer é lamentar.

  Ark e Mitaro continuavam a caçar o Fênix pela cidade, procuraram em cada canto, pediram a todos se não havia acontecido nada de estranho, mas ninguém sabia de nada, ninguém havia visto nada. O Fênix já tinha ido embora e nada mais podia ser feito.
  Os dois voltaram. Mitaro olhou para o corpo de Soule no chão e fez pouco caso, em seguida se virou e foi embora. Ark falou que não haviam achado o culpado e que suas pedras também haviam sumido.
 E isso foi a gota d'água para alguns.

- O Soule morreu, Ark. MORREU! E você ta preocupado com teu cajado e tuas pedras? Ele era nosso amigo. Olha pra ele agora! - fez uma longa pausa. - Será que ele merece um pouco da sua atenção?

  O rei ficou em silêncio por alguns instantes, deu as costas e subiu para a torre.

- Ótimo. Vamos enterra-lo.

  Kiara despertou quando já estavam carregando o corpo. Levantou e seguiu em silêncio com a multidão até o lugar onde o bardo seria enterrado. As elfas andavam na frente. Anadon e Trúvalum o carregavam, Mitaro observava de longe e a cidade toda havia parado para acompanhar o enterro.
  Quando estavam deitando ele na cova, Kiara se jogou de joelhos e recomeçou a chorar junto com Trúvalum e o restante do grupo. As lágrimas dos amigos se misturavam junto com a fina chuva que caía do céu. Até os deuses choravam.

 Alguns vinham amparar a elfa, mas ela nem percebia. Não existia mais nada ao seu redor, exceto ela e o Soule. E todos os momentos que haviam passados juntos, desde o dia em que conheceram passaram como um filme em sua cabeça. E ela só conseguia se lamentar, se lamentar por ter xingado ele noite passada, se lamentar por não ter dito mais vezes o quanto ele era especial pra ela. Se pudesse voltar no tempo jamais teria levantado aquela manhã. E os dois estariam juntos agora.

Um pouco antes de o enterrarem por completo, Ark chegou. Trazia com ele o violão do bardo, agora quebrado e com algumas cordas arrebentadas. Soule nunca desgrudava dele, e os dois protagonizaram boas cenas juntos. Como aquela vez que ele incomodou a torre inteira com os ruídos que davam arrepios ou quando tocava pra Kiara dormir ou acalmar o Killme quando ele virava dragão. Ark jogou o violão ao lado dele e todos prestaram suas últimas homenagens.

Aos poucos a multidão foi indo embora, tinham coisas a fazer e não dava pra parar o tempo ou ficar de luto pra sempre, ainda mais por um adolescente que mal conheciam. Todos foram embora. Menos ela.

  Quando percebeu que não havia mais ninguém, desenterrou ele até deixar sua cabeça a mostra.
Ela sabia que ele estava morto, sabia que não adiantaria nada desenterra-lo e que isso era loucura. Mas ela só queria olha-lo uma última vez e ficar sozinha com ele. Já que não tinha tido oportunidade antes.
E só ela queria estar com ele, só ela queria chorar por ele, abraça-lo e se despedir. Sim, ela é uma grande egoísta. Mas o amor que ela sentia por ele, era maior que isso. 
Ele não era só seu melhor amigo ou pessoa preferida, não era namorado e nem um cara do qual era apaixonada. Era algo maior do que tudo isso junto. Algo que não havia nome e nem jeito de explicar. Mas ela sentia e sabia que ele sentia o mesmo. Ao desenterra-lo ela só queria sentir isso mais uma vez...

  Então em silêncio ela orou, pela primeira vez. E nessa oração suplicou aos deuses para trazerem ele de volta. Mas nada aconteceu.

- Já está tarde. - Anadon se aproximou devagar.

- Ele não pode dormir sozinho.

- Vem Kiara. - Então os dois voltaram a enterra-lo e dessa vez sim, deram seu último adeus.

  Antes de partir, ela pegou seu violão e o apertou contra o peito. Olhou uma ultima vez para o rosto do bardo e prometeu baixinho que veria ele tocando novamente. Nem que fosse a última coisa que faria. Mas ela o faria. 

Um comentário: