terça-feira, 1 de outubro de 2013

A dançarina das sombras




Conhecem a história da dançarina das sombras? Dizem que é uma das assassinas mais famosa do continente. Se eu fosse homem, tomaria cuidado, pois suas vítimas não são compradas, são escolhidas a dedo...
A dançarina das sombras era uma menina linda, nascida em uma tribo no deserto. Seu nome era CéuMar. Ela era filha do sultão de sua aldeia. Olhos verdes, pele morena, uma beleza selvagem combinada com uma certa delicadeza. A aldeia era conhecida pela dança. De tempos em tempos realizavam festas aos espíritos do deserto e dançavam para eles. CéuMar era quem mais os agradava, pois sua dança era a mais sincera. Quando dançava, seus passos e gestos contavam uma história.
Quando caminhava, seus passos não eram como passos normais. Podia-se sentir a delicadeza em seu andar, que era quase na ponta dos pés...
Certo dia, três viajantes chegaram sedentos na aldeia. Pareciam perdidos. O pai de CéuMar permitiu que eles ficassem alguns dias por lá, até se recuperarem. Foi CéuMar quem levou água a eles e matou a sede dos jovens.
Belmir era o irmão mais velho. Olhos castanhos, corpo robusto, cabelos curtos, barba bem amparada e pele morena. Solenir era o irmão mais novo de Belmir. Eram irmãos apenas por parte do pai. Tinha cabelo longo, seus olhos eram de um castanho mais claro, cabelo castanho e longo, com ondas como as do mar. A barba era menos cuidada, a pele mais clara, traços mais delicados. Azíhr era o melhor amigo de Belmir. Eram amigos desde a infância, tinham a mesma idade, por volta de trinta anos. Era negro, robusto, um ótimo espadachin de Barilulá. Ambos viviam como vigias de caravanas, mas depois de serem saqueados, estavam perdidos no meio do Deserto do Meio.
Quando CéuMar viu Belmir, sentiu em seu coração uma nova dança. Depois de oferecer água a ele, correu até o salgueiro do poço e dançou para ele.
Na noite dos espíritos, CéuMar não dançou para eles, dançou para Belmir. E sua dança o conquistou. Solenir também se apaixonou por CéuMar, e por ela jurou amor eterno, mas CéuMar recusou.
Azíhr depois de oito dias voltou para sua cidade junto com outra caravana. Belmir e Solenir resolveram ficar.
CéuMar e Belmir viveram noites e noites de amor. Belmir aprendeu os costumes da tribo, e prometeu se casar com a jovem. Mas passado algum tempo, Solenir chegou a conclusão de que não seria capaz de aceitar isso, então convenceu o irmão de levar CéuMar para a cidade, e se casarem lá. Certamente o pai de CéuMar não aceitou que a filha partisse e abandonasse os espíritos.
Solenir convenceu CéuMar de que seria melhor fugir, mas para isso Belmir deveria ir primeiro e depois buscaria a jovem. Belmir aceitou a ideia, e partiu deixando a moça esperando.
Por semanas a jovem não dançou. Nas festas, sua dança era um choro, um lamento. E por anos ela esperou sem respostas.
Foi quando voltou a dançar para o salgueiro que teve uma visão. Viu Belmir se amando na noite com outra mulher. Viu o lugar, viu a casa, e ela cessou sua dança, caindo no chão.
Na noite dos espíritos todos se espantaram com a dança da jovem CéuMar. Era agressiva. Conforme ela se mexia, de seus olhos ela espalhava lágrimas. Dançou até não aguentar mais. Podia sentir todos os seus músculos doerem de tanta força que fazia para não parar. Até que ela caiu inconsciente.
Na manhã seguinte, quando a aldeia despertou sentiram a falta de CéuMar. Ela havia partido e levado tudo que tinha consigo.
Ela caminhou por dias no deserto até chegar em Barilulá. Não foi barrada nos portões da cidade. Aquilo tudo era muito novo para ela, mas ela sabia que ela também não era mais a mesma.
Andou até uma hospedaria. Mesmo nunca tendo saído de sua aldeia, sentia como se conhecesse a cidade. Ofereceu suas joias como pagamento de um quarto e apenas esperou o momento certo.
Ao cair da noite, CéuMar desceu até a taverna. Vestiu-se com um lenço no rosto e dançou para Belmir pela última vez. Ele não a reconheceu, pois estava bêbado, mas Solenir sim. O irmão mais novo se calou e apenas observou de longe. CéuMar chorou quando viu que seu amado não reconheceu sua dança, e por isso o chamou para dançar. Belmir aceitou a dança, e depois levou a jovem desconhecida para seu quarto. Quando a menina tirou o lenço do rosto, Belmir pensou estar sonhando. Sorriu cambaleante, mas voltou a ficar sério quando olhou para os olhos amargos da moça.
Ela jogou ele na cama e subiu atrás em pé. Dançou com o lenço, e por um momento, ele se alegrou. Nenhuma palavra foi dita. Quando a moça tremeu com os quadris, terminou a dança com duas adagas nas mãos. Dois cortes rápidos e precisos na garganta e a dança cessou.
CéuMar chorou sangue naquela noite. Ficou algumas horas observando o corpo de seu amado e depois vestiu o lenço na cabeça e saiu.
Dizem que ela nunca mais voltou para o deserto. Hoje ela é uma andarilha, que busca por homens com suas falsas promessas de amor para lhes por um fim. É uma assassina linda e amarga. A cada homem que ela mata, dizem que ela vê o rosto de Belmir e chora sangue.

Se é verdade eu não sei. Sei que já ouvi muitas histórias sobre homens que aparecem mortos na cama, com sorrisos endurecidos pela morte.

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