quinta-feira, 19 de setembro de 2013

O vulcão - Parte 4

Parte 4

Um sentimento mútuo de receio parecia invadir a todos com o convite. Aquele bolo tão bonito, apetitoso expressava tanta desconfiança para todos. Menos para Mitaro, que de pronto partiu um pedaço e comeu. Vendo que nada de mal havia acontecido com o exímio arqueiro, Lunah fez o mesmo. Ofereceu para Anadon, que ainda pasmo recusou. Ark também comeu, e o gosto era maravilhoso: morango; tão doce como jamais visto.

- Eu sei porque vocês vieram. Eu sei de tudo. Eu também poderia acabar com todo esse mistério e dizer logo onde está o domo, e o fim de tudo, mas eu me divirto tanto! –dizia o homem, que agora havia assumido a forma de uma bela mulher sedutora. – Ir ou não ir ao vulcão. Fazer ou não fazer tal coisa. Isso realmente me diverte! –continuava com grande entusiasmo.
- Mas devo lembrar que isso tudo pode significar o destino de vocês deuses também. –disse Lunah tentando convencer o deus.
- Sim, eu sei, mas acha que me importo? A graça é ver vocês todos nervosos, com suas cabeças explodindo de dúvidas e intrigas, e é isso que quero. –respondeu com um sorriso radiante.
- Então você não se importa com você mesmo. –afirmou a elfa.
- Contar tudo a vocês? E qual a graça disso? Prefiro ficar aqui sentado assistindo tudo em um telão e comendo pipocas.
- O que é pipoca? –perguntou Ark.
- Haha... Pare de ser sem graça! –ele disse mudando a expressão radicalmente para como se estivesse sem entusiasmo.
A iluminação do ambiente era feita por bolas de vidro presas ao teto. Delas saia uma luz mais clara que a de uma vela. Lunah por um segundo se perguntou se aquilo seriam as próprias estrelas do céu. A mesa era de uma madeira forte, e tão lisa quanto as pétalas de uma rosa, trabalhadas em ornamentos perfeitos. As cadeiras eram macias e fofinhas, estofadas em seu assento e encosto com um veludo verde escuro.
- Tudo um dia irá acabar, até os deuses. –disse o deus enquanto agora voltava a aparência de um homem. – O que eu posso dar a vocês são mais decisões e escolhas; e isso eu adoro!
Lunah e Ark se entreolharam por um instante, como se um buscasse a resposta nos olhos do outro.
- Venham, venham. Eu vou lhes mostrar. –levantou o deus e andou até um corredor cheio de portas.
O corredor parecia infinito, e as portas também. Todas iguais, bem simples.
- Essas portas, minhas crianças, abrem qualquer porta.
Ele abriu uma delas. Atrás da porta, podia-se ver o alto de uma montanha. Era como se ele abrisse a porta de uma varanda com tal vista, que era deslumbrante.
- Ops! Porta errada. –ele disse, e fechou rapidamente. – Podem escolher uma delas. É só me dizer qual porta gostariam de abrir, mas antes...
Anadon olhou para Lunah desconfiado.
- Antes eu tenho uma proposta. É que tenho me sentido tão sozinho aqui... Existe uma porta em especial, que quem a escolher eu prometo que levará ao ápice! Dentro desta porta está todas as respostas. Aquele que escolher ficar comigo, será como eu, e saberá de tudo, podendo responder a todas as perguntas, conhecerá todas as respostas do mundo! Quem quer? –perguntava enquanto esfregava as mãos com ansiedade.
Todos se calaram. Lunah sussurrou no ouvido de Anadon:
- Melhor não. Esse deus tem fama de ser traiçoeiro.
O elfo apenas concordou com a cabeça.
- Certo então. Quem será o primeiro? Que porta gostariam de abrir?
- Peça para abrir a porta do lugar onde estão suas memórias, Ark. –disse Lunah.
- Sim... –ele respondeu.
- Você deveria ir com ele, Lunah. Sabe por que... –disse Anadon.
- Eu sei. Eu vou com ele. Você vai para a taverna do Chifre Vermelho, em Arzenót. Nos espere lá. –ela respondeu.
- Taverna do Chifre Vermelho em Arzenót. Certo! Vamos Trúvalum e Mitaro. –respondeu o elfo.
- Eu não vou com vocês. Podem ir sem mim. –disse Mitaro que havia ficado pensativo por alguns minutos e ninguém percebeu.
- Vamos logo, Mitaro. Você vai com eles, para de tentar fazer merda como sempre. Deixe de ser criança e vá! –disse Lunah irritada.
- Já disse: eu não vou. Podem ir. –respondeu o arqueiro.
Anadon olhou para Lunah, como se ela ainda pudesse convencê-lo. A elfa apenas olhou para Mitaro com desprezo e respondeu para Anadon:
- Deixe esse idiota pra lá. Estou farta de ter que cuidar dele. Ele é um homem, faça o que quiser.
Anadon olhou para o chão, alguns segundos de silêncio foram tomados, mas logo o deus Iá quebrou:
- Vamos, vamos. Decidam! Eu mal posso aguentar!!! –dizia roendo as unhas com ansiedade acima do normal.
Anadon encarou Lunah por alguns instantes e a tomou em seus braços com um beijo inesperado. A elfa mal pode reagir. Sentia-se a elfa mais realizada do mundo. Se antes soubesse que a ida até o vulcão valesse um beijo, ela não teria contestado antes.  Ela o beijou também, com os olhos fechados de tamanha emoção.
Depois de beijar Lunah, Anadon foi até Mitaro, deu-lhe dois tapinhas nas costas e disse:
- Se cuide. Não faça besteira. Sabe onde estaremos, não demore.
Depois olhou para Ark e disse:
- Cuide dela. Cuide-se também. Por favor, não demorem.
Lunah ainda estava bêbada do beijo, mas sorriu para o elfo.
- Vamos Trúvalum. –disse para o ex gladiador. – Abra a porta da taverna do Chifre Vermelho em Arzenót! –disse para o deus, que murchou imediatamente o sorriso.
Anadon abriu a porta. De dentro dela podia-se ouvir o som de música tocando. Anadon olhou para Lunah e passou pela porta seguido de Trúvalum. A porta se fechou e a música cessou.
- E agora vocês! –disse o deus olhando para Ark e Lunah.
- Que porta você vai abrir, Mitaro? Que merda você vai fazer de novo? –dizia Lunah com pesar nos olhos.
- Eu quem sei. Deixa comigo! –ele respondeu.
- Já te perdi muitas vezes. Não vou tentar te impedir de mais nada, mas pode deixar de ser um burro egoísta e fazer a coisa certa? –tentava argumentar a elfa.
- Já disse... Deixa comigo!
- Então Ark? Para onde vamos?
- Abra a porta onde estão as minhas memórias perdidas. –disse Ark com firmeza para o deus.
A porta se abriu. Lunah olhou para Mitaro com vontade de chorar, mas segurou o choro.
- Não faça besteira. Eu preciso de você. –ela disse depois de abraça-lo.
 Ark e Lunah entraram. E a porta se fechou atrás deles.
- E você? –perguntou o deus.
- Eu não irei a lugar algum. Ficarei aqui com você. –respondeu Mitaro.
- E Pelor? Vai abandoná-lo? –perguntou Iá.
- Já cumpri minha missão. Ark agora terá suas memórias e vai poder se proteger sozinho. Não precisará mais de mim.

- Ótimo então. Venha comigo, vou te mostrar a porta.

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