terça-feira, 10 de setembro de 2013

O vulcão - Parte 1

Parte 1

O deserto parecia não acabar mais. Ark e Mitaro andavam sem parar a dias rumo ao vulcão. A grande sorte deles foi não ter arrancado a bela florzinha que encontraram no caminho, e por isso ganharam um grande amigo e guia. Era um "espírito do deserto", afirmava Lunah enquanto olhava espantada para a enorme criatura cheia de braços pelo corpo.
- Manjú sente que não deve mais ficar aqui. Manju vai embora. -disse a criatura quando viu a elfa Lunah vindo junto com elfo Anadon, e o ex-escravo Trúvalum. Carregavam consigo quatro camelos e um cavalo, e pareciam estar aliviados por finalmente ter encontrado os dois amigos.


Ark e Mitaro tinham ido acalmar os espíritos com o bardo flautista da aldeia que cruzaram no caminho. Lunah ficara ajudando as viúvas na aldeia, e Anadon e Trúvalum foram com o restante dos homens em busca de água. Já estavam a mais ou menos sete dias na aldeia e a ida ao vulcão já estava sendo adiada demais. Quando Lunah viu Anadon voltar com o restante dos homens, seus olhos se encheram de vida novamente. Sentiu uma enorme vontade de abraça-lo, mas não podia. Correu até ele sorridente e disse o quanto estava feliz por seu retorno. E o de Trúvalum, ela não pode deixar de esquecer. Algumas horas depois ela contou a Anadon sua novidade: seria madrinha de casamento de uma das mulheres da aldeia. Era essa a tradição, depois do primeiro filho do casal, aquela que fizesse o parto deveria ser a madrinha. Lunah havia feito o parto, e mal podia se conter de alegria.
- Sabe todo aquele azar que é ficar tanto tempo ao lado de viúvas? Vai ser revertido em boa sorte a hora que eu for madrinha! –ela dizia para Anadon.
- Se esse azar for verdadeiro, vai ficar viúva antes mesmo de se casar. –Ele respondeu.
Lunah emburrou a cara, e continuou comendo. Ela pensava que isso já tinha acontecido, mas só sua amiga Kiara sabia.
- E o Ark? E o Mitaro? –Ele perguntou.
Trúvalum continuava comendo. Não era normal ele falar. Só respondia quando Lunah perguntava, e só fazia o que Lunah mandava. Ainda achava que era escravo e devia obediência a ela.
- Eles ainda não voltaram. –Lunah ficou séria. – Temos que conversar sério sobre isso. –Continuou falando só que dessa vez em idioma élfico.
- Que houve? –Ele respondeu no mesmo idioma.
- Eu tive uma visão. Caius quem me mostrou. –Ela disse enquanto segurou a espada com força.
- Como assim? –Ele perguntou confuso.
- Eu estava no salgueiro ao lado do poço. Eu estava conversando com o salgueiro. Sim, eu sei que não faz sentido isso, mas eu estava me sentido sozinha. Daí depois Daerguel desceu do meu ombro e foi brincar na areia. Eu fiquei observando ele brincar, e em um piscar de olhos ele sumiu. Em uma hora ele estava lá, e em outra não.
Anadon escutava tudo com atenção.
- Eu entrei em desespero. Sabe que o Daerguel é a minha vida, e eu não posso viver sem meu pequeno dragão. Ele é meu melhor amigo e companheiro. Eu não sabia o que fazer, então corri até a Lua Crescente. Perguntei a ela se era normal as coisas sumirem no poço, mas a maldita viúva não sabia de nada. Ela disse que só o Cafí da aldeia que sabia dos mistérios do deserto. Eu fui até ele. Sei que não é costume dessa aldeia que homens conversem com elfas nem mulheres, mas eu estava desesperada com o Daerguel.
- Ta. E aí? –ele perguntou curioso.
- Eu contei a ele tudo que tinha acontecido, e ele me disse que o espírito do poço podia ter se agradado do meu dragãozinho. Eu disse que não era um presente. Ele respondeu que muitos viajantes como nós já haviam visto o espírito que habita o poço; que ela aparece de muitas formas, e se comunica de modos diferentes com cada pessoa. Eu estava em prantos, e voltei correndo para o poço ao lado do salgueiro. Comecei a conversar com o espírito. Pedi pra que me devolvesse o Daerguel, pois eu o amo. Depois, comecei a ver, dentro do poço o Ark. Ele estava andando com o Mitaro. O flautista não estava. Atrás deles tinha um monstro cheio de braços. O monstro os seguia. Depois vi algo detrás do salgueiro. Era o espírito do poço. Ele era feio, chegou bem perto de mim. Eu tremia. O rosto feio se transformou no rosto de uma velha, e eu implorei pelo Daerguel. Quando me dei por conta eu estava em outro lugar. Tinha seres gigantescos, colossais, eu diria. E Caius. Ele estava ao meu lado e gritava no meu ouvido: “Não os escute!”. Nós demos um salto, e eu estava encima de uma montanha ao lado do Ark. Ele estava com os olhos amarelos, e parecia estar realizado com alguma coisa. Ele me dizia: “Você foi a única que me ajudou, foi a única que esteve realmente comigo. Pode me pedir o que quiser.” Depois veio Caius e começou a gritar a mesma coisa no meu ouvido e demos outro salto. Eu estava rodeada de zumbis, mas eles não me atacavam. Depois Caius apareceu e gritou novamente e demos outro salto. Eu via uma guerra entre dragões. Talude estava lá, e veio correndo na minha direção. Eu ia tentar falar alguma coisa, mas ele me apontou o cajado e me atacou. Caius apareceu e se jogou na frente. – Lunah mostrou a espada com uma lasca no fio. – Depois eu estava em Tenebra. Tinha uma casa, e eu espiei pela janela o que tinha dentro. Estava um homem sentado, parecia com você, então eu entrei. Ele escrevia alguma coisa, não era você. Ele tinha cabelos negros, era humano. Acho que foi a penumbra que me confundiu. Ele me disse que o mundo seria estruído, mas que eu deveria impedir isso. A gente conversou um pouco, mas Caius apareceu gritando de novo que eu não deveria ouvir. Mas eu queria ouvir. Logo ele me tirou de lá, e quando eu percebi, estava sentada no salgueiro, admirando Daerguel brincar.
- Nossa... Não sei nem o que dizer. Acho que devemos ir atrás do Ark...
O caminho até encontrar os dois não foi difícil. Agora Anadon sabia como encontrar água com facilidade. Lunah encheu o corpo de Anadon com óleo. “Para espantar os espíritos!” ela dizia o tempo todo. Anadon não acreditava, mas não se opunha. Mas agora, em frente ao Manju, Lunah sentia que o óleo realmente fazia o efeito de modo correto.
- Viemos buscar vocês. –disse Anadon.
- Nós estamos indo para o vulcão, Anadon. Não tem problema se quiserem voltar. –disse Ark.
- Mas nós estamos andando a dois dias no deserto, viemos só para buscar vocês. –refutou o elfo.
- Onde está o flautista? –perguntou Lunah
Mitaro olhou para Ark, como se quisesse dizer alguma coisa. Ark parecia incomodado com alguma coisa.
- Eu tentei matar ele. Quero dizer, o “outro” Ark. Mas acho que ele está bem. –respondeu Ark.
- Não acredito! –disse Lunah frustrada.
- Já deve estar morto. Sem a flauta, ele não sobrevive muito tempo no deserto. –disse Mitaro desinteressado.
- Tá. E agora? Vocês vão voltar com a gente, não vão? –disse Anadon.
- Não sei... Acho que seguiremos ao vulcão. –disse Ark.
- Olha, a gente já perdeu muito tempo aqui. Logo em frente tem o tártaro, é um dia andando pra chegar no vulcão. Se até aqui a gente já quase morreu um monte de vezes, imagina o que vai ter lá! Sério, pra mim já chega. Se quiserem ir, vão. Eu não vou.
- E você vai deixar eles irem sozinhos? –preguntou Anadon.
- Não, mas eu não posso fazer nada se eles querem morrer. Eu não quero. –ela respondeu.
A discussão demorou algumas horas. O sol já estava cansado, e estava prestes a se retirar. Os cinco resolveram ir até o poço mais próximo, que ficava apenas a algumas poucas horas dali. Eles dormiriam, descansariam e depois decidiriam o que fazer.
Ark precisava de suas memórias. Com elas saberia quem realmente era. Teria talvez seus poderes de volta, pois saberia como fazer. Isso facilitaria muito na busca pelo domo. Talvez ele decidisse não ir, mas o “Ark mal” queria isso a todo custo, e deixar ele bravo podia ser perigoso; todos já sabiam disso. Quantas vezes não viram o “Ark mal” assumir o corpo e fazer as coisas a sua maneira? Ark também tinha receio disso.
Mitaro seguiria Ark qualquer que fosse o rumo. Ele como um paladino do sol sabia que deveria proteger Ark, mesmo que isso custasse sua vida, afinal, se Ark morresse, o sol morreria também.
Trúvalum faria o que Lunah mandasse, seria impossível saber o que ele preferia. Era um escravo. Estava prestes a ser largado em uma arena de gladiadores, quando apareceu Lunah e pagou 350 moedas de ouro por ele. Quando chegaram em seus quartos, Lunah disse: “Agora você é homem livre. Pode fazer o que quiser”.
Anadon não queria ir até o vulcão, mas se importava com Ark e Mitaro. Não queria deixar que caminhassem sozinhos para a morte. Mas se Lunah dissesse que não iria, e seguisse para a cidade, certamente iria com ela.
Lunah iria com Mitaro e Ark. Ela iria mesmo com medo de morrer. Mas não aceitava a ideia de correr o risco de perder Anadon. Não de novo!
- Quer saber? Prefiro ver o sol morrer para sempre, e ver tudo acabar aos poucos do que correr o risco de ter que fechar seus olhos mais uma vez! –ela disse em um desabafo para Anadon, que ficou imóvel, sem reação a ouvir isso.
A tanto tempo Lunah havia guardado esse segredo. Todos já haviam percebido, mas ela nunca havia declarado seu amor a ele. Desde o dia em que ela viu ele no navio, ela sabia que aquele elfo tinha roubado seu coração. Nenhuma palavra foi dita. Ele nem havia reparado na presença dela, mas ela sentiu seu coração bater depressa. Quando o barco foi invadido, ele foi quem melhor lutou. Parecia até impossível que seu peito pudesse ter sido atravessado por uma adaga do inimigo. Lunah pegou o elfo agonizando nos braços, e implorou para que ele sobrevivesse. Ninguém ajudou, ninguém fez nada e o elfo que ela nem sabia o nome, mas sabia que era o dono de seu destino morreu. Foi Lunah quem fechou seus olhos, e de longe viu seu corpo ser enterrado em meio ao gelo daquelas terras: as Terras Geladas. Naquele dia Lunah fez uma promessa: ela traria ele dos mortos, nem que isso fosse a última coisa que fizesse na vida. Quatro meses depois, após andar atrás de respostas e enfrentar coisas que nem imaginava, ela conseguiu. Estava realizada por tê-lo ao seu lado, mas nunca confessou seu amor por ele. Não até aquele momento.
Decidiram que iriam até o vulcão. Se era essa a vontade de Anadon, Lunah não faria diferente. Quando chegaram no tártaro, cada um fez uma promessa:
- Eu prometo que se eu sobreviver, vou fazer coisas que sinto vontade. –disse Anadon.
- Eu prometo que vou continuar protegendo a todos –disse Mitaro.
- Prometo ajudar a Lunah no que ela me pediu. –disse Ark.
- Prometo levar a pantera do Faraún até ele, e buscar o Rex. –disse Lunah.
- É! Eu prometo isso também! –concluiu Ark com um sorriso no rosto.
- Prometa que não vai morrer. –Lunah disse a Anadon.
- Eu prometo que não vou morrer. E você? Promete também?
- Prometo. Se você morrer, morreremos os dois. –respondeu Lunah com um nó na garganta.
- E você Trúvalum? O que promete? –perguntou Ark.
- É, Trúvalum. Faltou você. –disse Lunah.
Trúvalum olhou para todos. Pensou um pouco e respondeu:
- Prometo que vou ser homem livre de verdade.

Todos sorriram e seguiram.

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