quinta-feira, 26 de setembro de 2013

LUTO - Henry Chinasky


A cidade estava em luto. A chuva fininha se misturava com as lágrimas das pessoas que passavam junto à uma pequena procissão com os seis mortos pelo ataque à cidade. De longe, um cavalo foi avistado em direção aos portões da cidade. O homem em cima do cavalo não parecia um cavaleiro. Não usava armadura, nem uma aparente arma, muito menos um elmo. Era careca, sem sobrancelhas e mal vestido. O cavalo vinha arrastando alguma coisa, era um corpo.

O homem em cima do cavalo se dirigiu até Lunah, que estava em frente a torre observando a procissão.
- Aqui está. Não disse que faria o trabalho? –disse o homem.
Lunah olhou para o corpo, fez uma careta. Era um elfo, só que sem os olhos. Estava inchado, com o peito aberto e vazio.
Um homem moreno se aproximou do corpo, parou ao lado de Lunah, se abaixou em frente ao elfo morto e ficou olhando por alguns segundos.
Logo em seguida veio Ark, que antes já estava próximo. Mitaro chegou logo depois.
- Ficarei aqui por mais um dia. Se precisar de mim... –disse o careca enquanto descia do cavalo.
Lunah consentiu com a cabeça, olhou para Ark, e voltou a olhar o corpo. As pessoas na cidade começaram a olhar também. O homem moreno levantou e saiu de perto.
Lunah olhou para um dos soldados que guardavam a torre e disse:
- Chamem o Tranca Dupla.
Demorou alguns minutos até que o gnomo desceu as escadas da torre.
Ele olhou para o corpo, e com um ar de riso amarelo disse:
- Não é ele! Está muito diferente. Certamente não é ele.
Ark permanecia calado diante da situação. Mitaro tentou falar alguma gracinha, mas Lunah o interrompeu:
- Tranca, eu acho que é ele sim. –disse Lunah parecendo um pouco mais sentimental.
O homem moreno voltou, se aproximou do gnomo e disse:
- Algum animal deve ter comido os olhos e o que havia no peito.
Tranca Dupla parecia em choque. Os olhos do gnomo se cobriram por lágrimas. O velho gnomo não queria acreditar no que seus olhos mostravam, e por um instante foi como se o velho Tranca se perdesse no vazio do tempo. Logo depois voltou a si, e saiu andando lentamente, como se tivesse acabado de levar um soco no estômago. Se dirigiu até a torre e sumiu da vista de todos. Ark saiu logo atrás dele.
O homem moreno baixou a cabeça com negação e saiu andando junto com a procissão.
Lunah olhou para o soldado que seguia junto com a multidão e disse:
- O nome dele era Henry Chinasky. Enterrem junto com os outros.
O soldado consentiu com a cabeça, e Lunah seguiu a procissão que caminhava até o cemitério fora dos muros da cidade. Parou ao lado do humano e disse olhando para o corpo de Henry enquanto era enterrado:
- Foi um bom homem.
- Todos são depois que morrem. –retrucou o homem.
- Mas isso é bom. Porque lembrar as coisas ruins?
- As pessoas só fazem isso porque é o que querem que façam com elas quando morrerem.
- Pode ser. Mas penso que todo mundo tem seu lado bom, então que lembrem dessa parte quando a pessoa se for. –disse a elfa ainda olhando para o corpo.
- Amanhã a cidade já não se lembrará mais deles.
- E isso é bom. A vida é para os vivos. –disse Lunah. – Eu gostava do taberneiro. Ele era legal... Ficava ouvindo nossas conversas no balcão e nunca disse nada a ninguém.
- Ruim é quando se corre o risco de morrer sozinho, e nunca ser encontrado. Aí sim, ninguém se lembra...
Alguns segundos de silêncio tomaram conta. Lunah avistou Tranca Dupla que saia da torre com malas.
- Olha lá o Tranca! Está com malas. Me ajude a convencê-lo a ficar aqui que te dou vinte moedas.
- Não posso. –respondeu o homem moreno. – Tem coisas na vida que não tem preço.
Lunah se calou por um instante. Depois correu em direção ao gnomo e disse:
- Tranca. Onde você vai?
- Vou seguir. Não posso ficar aqui. Já estou velho para ficar vendo as pessoas que gosto morrerem. Talvez eu contrate um meio orc como segurança.
- Você não pode ir. Ninguém aqui vai morrer. Nós aqui somos uma família. Unidos. Toda manhã tomamos café juntos, pois somos unidos, e é isso que nos faz tão fortes, não percebe? O venon, ele era forte com vocês, mas ele decidiu ir sozinho, por isso ele morreu. Mas nós... Nós corremos o tempo inteiro em direção a morte e sobrevivemos, isso porque estamos unidos. Olha, tem um dragão no nosso grupo, uma garota que fala com formigas, um cara que ficou quatro meses morto... Só tem gente estranha no nosso grupo. Eu sou fraca. Todos são. Mas todos nós somos fortes, porque somos um, e precisamos de você com a gente. Com você ficaremos mais fortes ainda. Fique, Tranca. Por favor, fique com a gente...
- Menina, vou te dar um conselho: se afaste dessas pessoas. Você gosta muito deles. –respondeu Tranca Dupla enquanto arrumava as malas na carroça.
- Mas Tranca, precisamos de você aqui, com a gente. –implorou Lunah olhando nos olhos do velho.
- Isso não é um adeus. É um até logo!
Tranca Dupla entrou na carroça. O humano moreno se sentou logo atrás e saíram em direção aos portões da cidade. A carroça pulava, e os pés do homem moreno batiam junto enquanto ele olhava para Lunah com um sorriso disfarçado. Estendeu a mão e jogou uma moeda de ouro para Lunah.
Lunah pegou a moeda, olhou e viu o brasão de Zolkan cunhado na moeda. Ela sorriu e guardou a moeda no bolso. Depois viu Ark se aproximar e disse:
- O Tranca se foi...
- Eu sei. Vi ele enquanto arrumava as malas.
- E não tentou impedi-lo?
- Ele estava resoluto.
A procissão já havia acabado. Os mortos já estavam enterrados e Ark foi até a sepultura de Henry. Ficou alguns segundos em silêncio, depois cravou uma espada de duas mãos sobre a terra. Fez um pequeno buraco e enterrou uma pedra.
Ele nunca quis que eu devolvesse essa pedra...” –pensou.
Olhar para um amontoado de terra com uma pedra escrita “Henry Chinasky” parece olhar para uma ilusão. Quem um dia cruzou com Henry pelos caminhos da vida, provavelmente nem percebeu. Quem conversou com Henry Chinasky, provavelmente desdenhou. Mas quem realmente conheceu Henry Chinasky, o Capitão dos Punhos de Ferro, Bracinho, Aleijado, Venon... Quem conheceu de verdade e viu o amontoado de terra com a pedra com seu nome pintado, provavelmente não será capaz de acreditar no que seus olhos veem.
Ninguém sabe ao certo quem foi Henry Chinasky. Nem humano, nem zumbi. Nem elfo, nem venon. Nem na terra, nem no inferno. Nem bom, nem mal. Talvez ele tenha conseguido ser mais que tudo isso, e só o mundo não foi capaz de compreendê-lo.
Mas uma certeza há: Henry Chinasky deixou seu legado. E para muitos, jamais será esquecido.

Mesmo que ninguém saiba, Zolkan hoje está de luto.

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