quinta-feira, 26 de setembro de 2013

Já faz tanto tempo...


A guerra estava no seu ápice. Mais tarde ela seria lembrada como a Guerra dos Cem Anos, mas nessa época eu mal sabia quanto era cem. Tinha só cinco anos, e a guerra pouco importava pra mim. Passava a maior parte do dia ajudando minha mãe que estava grávida e de vez em quando eu ajudava meu pai na lavoura.
Nem sabia o que estava acontecendo quando um monte de soldados elfos vieram até nossas terras e levaram meu pai com eles. Nós seguimos para uma gruta no meio de uma floresta, junto de centenas de mulheres e elfas. Passamos meses dentro de uma caverna, que com o tempo virou nosso único lar. Lembro-me de perguntar por meu pai. Minha mãe dizia que ele estava nas muralhas brigando por nossas terras, mas isso para mim não queria dizer muita coisa.


Meu irmãozinho havia nascido. Se chamava Bar Taquá. Era parecido comigo, dizia minha mãe:
- Vê esses cabelos negros, Sonja? Ficarão lisos, como o seu. E os olhos dele se tornarão azuis, como os que você herdou de seu pai.
Com o tempo, nem os elfos estavam dando conta de nos alimentar. A comida estava escassa. O leite de minha mãe havia secado e meu irmão, com seis meses de vida já chorava de fome.
Estava anoitecendo, e eu me reuni com cinco meninas com a mesma idade que eu tinha:
- Quem aqui sente fome? –eu perguntei.
As cinco meninas levantaram a mão.
- Bar Taquá também. Os elfos não conseguem caçar porque tem que cuidar das nossas mães, então vamos caçar nós mesmas. Quem está comigo?
As cinco concordaram. Saímos escondidas mata a dentro com pedaços de pau. Andamos por umas duas horas até que avistamos de longe uma forte iluminação. Vi que eram pessoas que vinham com tochas de fogo para iluminar o caminho. Eram muitos, e estavam perto.
Corremos de volta em direção ao acampamento na caverna. Quando cheguei, contei aos soldados elfos e a minha mãe. Houve um grande tumulto, e em poucos minutos o acampamento estava sendo desfeito. Os elfos estavam aflitos, minha mãe também. Não demorou muito para que aquelas pessoas chegassem ao nosso acampamento e começassem a devastar e matar a todos. Minha mãe corria segurando minha mão e Bar Taquá no colo. Lembro que corríamos em meio as árvores. Os elfos lutavam bravamente para nos defender, mas o caos já estava lá.
Minha mãe não corria tanto quanto eu era capaz de correr. Já estava envelhecendo e não se alimentava bem fazia dias para que eu e meu irmão pudéssemos comer.
- Pegue ele, Sonja! Corra o mais rápido que puder e não pare até que esteja segura. –gritou minha mãe enquanto me entregava meu irmão que chorava como se pudesse entender aquilo tudo.
- Mas mãe... –eu disse.
- Vai. Corra! –ela gritou com os olhos cheios de lágrima e suor.
Hoje nem me lembro mais do nome dela, mas nunca vou me esquecer do desespero em seu rosto.
Eu peguei Bar Taquá como se estivesse segurando minha própria vida. E corri alguns passos. Olhei para trás, para ter certeza de que minha mãe ficaria bem, mas só me lembro de ver ela caindo com um golpe certeiro. Naquele momento o desespero dela possuiu a mim também, e eu só tinha cinco anos.
Corri com Bar Taquá no colo. Eu corria tanto, que minhas pernas não podiam mais aguentar. Me escondi atrás de uma árvore para respirar. Ao longe eu ainda podia ouvir os gritos das pessoas que ficaram lá. Eu ainda via minha mãe caindo de joelhos nas folhas do chão. Então eu corri mais ainda, até que cheguei próximo a um rio que corria apressado. Parecia fundo e eu não sabia como atravessá-lo com Bar Taquá no colo. De longe ouvi passos de um cavalo e estremeci. O cavaleiro olhou para mim, e depois para Bar Taquá. Tentei correr, mais do outro lado vinha outro homem.
Lembro de começar a chorar mais ainda. Não tinha para onde correr. Eu não estava com medo de morrer, apenas sentia medo e sabia que tinha que proteger meu pequeno irmão. Eu sabia que ele agora era a única coisa que me restara. O cavaleiro correu em minha direção e eu lembro de apenas estremecer. Me joguei no chão com Bar Taquá e o cavaleiro passou correndo por mim. Eu olhei espantada e em um segundo o soldado que corria até mim estava morto no chão. O cavaleiro me fitou novamente e eu me encolhi no chão com medo. Ele desceu do cavalo e caminhou até mim.
- Temos de atravessar o rio. –ele disse.
Eu não conseguia falar. Não sabia se era amigo ou inimigo. Não sabia o que fazer. Não respondi nada. Bar Taquá não parava de chorar.
- O cavalo agora é inútil. Não podemos levar o bebê. –ele continuou falando enquanto observava ao seu redor.
- Quem é você? –eu gritei com raiva.
- Não temos tempo. Deixe o bebê. –ele me apressou.
- Não vou deixar Bar Taquá. Não posso... –eu chorava.
- Droga! Não acredito que estou fazendo isso! –ele esbravejava. – Vamos garota. Se ficar, vocês dois morrerão.
- Mas ele vai morrer! –eu disse com mais raiva ainda.
- Ele não vai morrer.
- Vai sim, ele vai morrer. Não posso deixar ele morrer, tenho que proteger ele, a minha mãe...
- Vamos. Largue ele aqui. Ele não vai morrer, eu estou certo.
Foi tão difícil... Os olhos azuis de meu irmão eram realmente iguais aos meus... Ele chorava, como se entendesse o que estava acontecendo. Eu não queria deixa-lo, mas eu não tinha escolha. Soltar ele de meu colo e colocar ele em um cantinho entre as raízes daquela árvore foi a maior dor que já senti. O choro dele soava como um pedido de socorro. Nunca chorei tanto em minha longa vida. Nunca sofri tanto, mas eu larguei ele ali.
- Vamos! Ah, droga! – o homem gritou quando viu mais dois homens que se aproximavam.
- O que vamos fazer? E Bar Taquá? –eu implorava por uma solução rápida.
O homem parou olhando para o extenso rio e tirou de dentro do bolso um relógio com apenas um ponteiro. Nesse momento pude ver a coisa mais incrível que já havia visto. Vi o rio morrer. Vi o homem parar de correr, e a folha da árvore que caía, desistir de cair e parar em meio a queda. O tempo parou. Tudo parou. Menos o homem e eu.
- Vamos! Atravesse o rio! –ele gritou.
Eu não sabia nadar. Lembro que ele atravessou o rio comigo no colo, e quando chegamos em terra, o rio tomou vida novamente, e hoje sei que naquele instante a folha caiu.
 Passamos a noite dentro de uma caverna. Ele esbravejava coisas que eu não entendia.
- O que aconteceu? –eu perguntei.
Ele fitou meus olhos e perguntou:
- Você está vendo?
- Vendo o que?
Nesse instante minha cabeça foi invadida com um turbilhão de imagens desconexas que eu não entendia. Acho que fiz uma careta, pois logo depois ele disse:
- Está acontecendo. Maldição! Maldição!
Ele parecia furioso e eu não entendia nada.
- Durma, garota. Amanhã estaremos bem longe daqui.
Não consegui dormir naquela noite. O choro de Bar Taquá parecia que ia me ensurdecer. Isso tudo em meio as imagens e cenas que vinham hora e outra em minha cabeça. Pensei que enlouqueceria antes do amanhecer, mas não.
Na manhã seguinte caminhamos. Gostaria muito de lembrar para onde, mas me falha a memória. Depois de um banho e com a claridade do sol pude ver melhor o rosto do homem que salvara a minha vida e acabara com a de meu irmão. Tinha cabelos bem aparados e castanhos. Um cavanhaque baixinho e os olhos castanhos. O rosto redondo aparentava ter por volta de trinta ou quarenta anos. Era bonito, mas eu tinha só cinco anos, e juro que não reparei isso no dia. Ele se chamava Sargon, e eu caminhei com Sargon por dias até chegar em uma cidade.
Sargon ficara calado o tempo todo. Seu nome foi uma das poucas coisas que disse além de “maldição”, “não pode ser”. Eu não sabia porque ele estava tão bravo, mas também não queria muito conversar.
- Você agora fique aqui. –ele disse.
- E onde você vai? 
- Vou embora. Já fiz o que ele queria.
- Mas e eu?
- Vai ficar bem. Com o tempo vai entender tudo. Já perdi muito aqui. –disse ele enquanto me dava as costas em direção a estrada.
- Eu vou com você!
- Já disse pra ficar aqui!
Bom... Sargon não teve muita escolha. Por mais que ele caminhava, eu caminhei atrás dele. Por mais que ele ignorasse minha presença, eu segui ao lado dele. Eu não tinha para onde ir...
Caminhei com Sargon por tempos. Era sempre isso o tempo todo: caminhar e observar. Vira e mexe as visões invadiam meus olhos e eu via coisas que aconteciam em outros lugares. Vi com meus olhos Kaliót nascer. Vi com os olhos de outros a cidade flutuante morrer. Vi reis se levantarem e caírem. Vi povos surgirem, vi o mundo mudar e vi o tempo passar. Menos pra mim. Eu nem sabia mais quanto anos tinha e minha aparência era a de uma garotinha de vinte.
Às vezes eu e Sargon tínhamos que lutar contra alguns inconvenientes na estrada. Não éramos bons guerreiros, mas tínhamos a vantagem de saber tudo o que aconteceria bem antes de acontecer. Se tornar um escriba do tempo tem suas vantagens. Mas é um fardo tão pesado...
Sargon me ensinou tudo que podia. Me contou que quando parou o tempo em frente ao rio, devia ter me parado também. Ele não fez porque sentiu que era esse meu destino. Naquele momento, Chronos, o Senhor do Tempo entendeu que agora eu deveria carregar o fardo de Sargon. Ele agora estava a mercê do tempo. Envelheceria, perderia suas visões, ficaria cada vez mais fraco, e eu cada vez mais forte.
Aprendi que o tempo é o único deus que nunca morre. Ele é tudo. A folha que cai, a flor que murcha, o pássaro que voa, a criança que chora, o vento que sopra. Ele é a farpa no dedo, ele é o som do bardo, ele é a chuva que cai. Ele está em todos os lugares, e ele fala com a gente o tempo todo, basta a gente querer ouvir. Com o tempo eu aprendi a entender ele. Bastava eu tocar em uma pessoa e podia ver claramente todo o passado, presente e futuro de alguém. Não era magia. Não existe passado nem presente nem futuro. O tempo é como um bloco só. Acontecem ao mesmo tempo, e entender isso não é difícil quando se passa tempos e tempos apenas observando. Sou uma observadora.
Eu e Sargon nos tornamos grandes amigos. Na verdade, muito mais que isso. Quando se passa algum tempo andando e observando as coisas ao seu redor, o mundo parece dobrar de tamanho e você se sente pequeno e solitário. Mas com Sargon eu não me sentia sozinha. Nos amávamos em meio ao silêncio da noite como duas crianças inocentes. E o silêncio entre nós, era nosso maior diálogo. Com o tempo, se cansa de falar. Se cansa de reclamar, pois sabemos que não existe motivos para reclamações, Chronos sabe o que faz, e tudo que ele faz, faz certo. Na verdade não existe o certo. Nem o errado. Existe só o tempo. Tempo de ordem, tempo de desordem. Tempo de acalmar e o tempo de provocar.
Entre nós não existia culpa, remorso, rancor... Sabíamos o que tinha que ser feito e assim fazíamos. E se não havia nada a ser feito, nada era feito. Caminhamos juntos por toda Zolkan. Observamos tudo que podíamos. Tudo que víamos, sabia que os outros escribas do tempo viam também. Quando eles viam, eu e Sargon víamos.
Quando se passa certo tempo, se aprende que não tem porque contar o tempo; o tempo quem mostra as coisas a você. Sargon foi envelhecendo. Suas visões eram turvas, suas premonições fracas. Seus cabelos foram ficando brancos. Seu amor mais cansado. Eu me culparia por ter substituído Sargon como escriba do tempo, se não soubesse que com o tempo, se deseja a morte. Me culparia se sentisse culpa, mas quando se é um escriba do tempo, sabemos que tudo acontece como deve acontecer.
Um dia ele me disse que precisava de uma casa e mais conforto para sua velhice. Fomos de barco até uma ilha, e por tempos construímos uma casa para nós. Sargon foi o velho mais bonito que já vi. Queria que ele pudesse ver hoje meus cabelos brancos, e soubesse como fiquei quando o tempo chegou para mim também. Ele daria risada de minhas rugas, e me chamaria de velha assanhada.
Algum tempo depois, Sargon veio até mim. Estava cansado, caminhava com a ajuda de um cajado. Ele tirou o relógio de seu bolso e colocou em minhas mãos.
- Você deve partir. –ele disse com os olhos marejados de lágrimas.
- Porque diz isso? –eu perguntei sem entender nada.
- Chronos chegou para mim, Sonja. Não sou mais um escriba do tempo. Eu vou morrer, e não quero você por perto quando isso acontecer. Não quero que veja isso.
- Eu sei. –foi o que eu disse. – E meu irmão? Você nunca me contou o que aconteceu com ele.
Sargon não me respondeu nada. Eu entendi que tem coisas que não precisamos saber. Sargon me disse que ele ficaria vivo, e para mim isso bastava, mesmo que pelo tempo que passou, ele já deveria estar morto pela idade. Mas se Sargon não queria me dizer, é porque eu não deveria saber. Quando se é escriba do tempo, se aprende que se devemos saber de alguma coisa, saberemos naturalmente. Não precisamos correr atrás de nada. O que tem de acontecer, simplesmente acontece.
- Eu te amo, velho rabugento. Não se esqueça disso. –eu disse com lágrimas nos olhos.
Sargon me olhou com lágrimas escorrendo pelos seus pequenos olhos cobertos pela idade e disse:
- Então vá.
Sargon não precisava dizer que me amava. Quando se vive muito tempo ao lado de uma pessoa, podemos entender tudo que se passa dentro dela apenas olhando nos olhos. Eu sabia o que Sargon estava sentindo. Sabia que ele não queria que eu fosse. Sabia que ele queria dizer o quanto me amava, mas ele também me conhecia, e não podia correr o risco de me convencer a ficar.
Ele me entregou uma bolsa com dinheiro e eu parti. Em momento algum senti remorso. Em momento algum questionei o destino. Em momento algum pensei em voltar. Saudades eu senti mais que tudo. Quando se vive muito tempo ao lado de uma pessoa, ela se torna parte de você, e agora eu estava faltando um pedaço.
Quando me sentava na mesa de uma taverna, uma cadeira sempre sobrava. Quando eu tinha alguma observação a fazer, não tinha ninguém para dividir. Se antes eu já apreciava o silêncio, agora eu era subordinada a ele
Lembro-me de uma das mais dolorosas visões que tive. Foi tão rápida, mas aquelas poucas imagens que vi me atormentaram por dias. Era a casa, a nossa casa sendo consumida pelo fogo. Não senti desespero. Não senti tristeza, não senti nada, apenas solidão. Quando se vive por muito tempo, a morte é um alívio.
Por muito tempo senti falta de Sargon. Por muito tempo não tive ninguém para reclamar das roupas que eu vestia. Por muito tempo dormi numa cama sozinha.


Mas só por muito tempo.

Nenhum comentário:

Postar um comentário