segunda-feira, 23 de setembro de 2013

A chuva e o demônio


A chuva e o demônio


O sonho de todo Riodan é viver nas montanhas. O sonho de todo Riodan é plantar e colher seu próprio alimento e saboreá-lo junto a uma fogueira quente e segura. O sonho de todo Riodan é degustar um bom copo de hidromel ao lado de sua companheira após uma linda noite de amor ao vento seco das montanhas e ao odor suave do carvalho, tendo o céu como teto. O sonho de todo Riodan é envelhecer junto a seus filhos, netos, bisnetos e tataranetos, todos como irmãos, em plena sintonia com a Grande Mãe. O sonho de todo Riodan é, ao fim de seus fartos dias, sentir-se tocado ao Exílio Eterno e, quem sabe, viver eternamente no paraíso terrestre, tal qual contam as lendas que ouvimos na nossa infância...
... O sonho de todo elfo Riodan é a inocência. Viver e sentir a inocência de todas as formas físicas e abstratas. A inocência é o segredo da Suprema Felicidade. Hoje entendo isto...
Hoje entendo tudo. A inocência foi abruptamente amputada de mim como um membro indesejado. Fui privado de meus irmãos, de meu passado e de meu futuro. Fui privado de meus sonhos.


Hoje, a única coisa que sinto é o cheiro de fumaça, aço e sangue. Hoje, a única coisa que sinto é o gosto ferruginoso e ácido desta peste que me consome. Hoje, a única coisa que sinto é este comichão diabólico que coroe minha carne, desgasta meus ossos e enfumaça minhas vistas, pouco a pouco me tornando o mais horrível dos demônios. Hoje, o único prazer que sinto é o ódio, a dor e os últimos segundos de vida nos olhos de minha presa.
Me esgueiro pelas escadas das selvas de pedra observando um outro mundo. Um mundo construído não pela perfeita natureza, mas pelas deturpadas mãos de homens poderosos e sanguinários, que construíram e cimentaram seus muros a base da carne e do sangue de seus soldados mercenários, que não são vermes melhores que seus governantes. Por mais que eu me esforce, não consigo mais sentir nada por estas criaturas, exceto nojo: crianças, jovens, adultos, homens, mulheres, de todas as raças e cores... Este mundo é sujo. Suas terras são lixões dilatados por excesso de imundície, luxúria, sexo, poder e morte. Não importa a ladainha hipócrita que cantem os bardos em seus poemas, afirmando a beleza dos campos e enaltecendo o passado heroico de suas cidades; a única coisa que consigo enxergar é uma fina camada invisível de sangue e excrementos que já entupiu e amaldiçoou o solo e tudo que dele vive e quando transbordar, todos os parasitas morrerão afogados, e ninguém poderá dizer que eles não tiveram escolha.
Não me importo com eles. Eles são todos assim, e nunca mudarão. Um dia talvez eu tenha tido pena deles. Hoje, por mais que me esforce, não consigo. Apenas uso-os como instrumentos menores, para alcançar propósitos maiores, e confesso que não me sinto mal por isto. Na verdade, não sinto praticamente mais nada de minha antiga vida. Não consigo lembrar meus sentimentos...
... Não sou mais um elfo. Não sou mais um Riodan. Não sou mais o Killua. Sou apenas o Mão-Negra.
A chuva não para. As ruas estão desertas. As poucas pessoas nas ruas escondem-se nas marquises, seguindo seu instinto natural em busca do conforto. Os soldados reforçaram a segurança e os muros da cidade estão abertos. Oito homens no portão, dez cavaleiros ao menos formam um corredor à fora, vinte arqueiros nos altos muros e um atalaia mirando o horizonte do alto de sua guarita. Estão à espera de alguém. Com sorte, espero que ele não ofereça resistência, e não torne isto mais difícil do que já é...
Um casal de crianças humanas, talvez sejam irmãos, me olha pela janela de uma humilde casa quase aos pedaços na periferia de Arzenoth. Esta não é a pior cidade humana que já vi. Na verdade, de todas as cidades humanas esta é a mais civilizada e justa que já pude pisar, não se sabe até quando. O cheiro dessa cidade me lembra o odor nauseante de um moribundo febril. Cheiro de medo. Medo dos próximos segundos e da foice do destino.
As crianças me olham com curiosidade: Um ser encapuzado andando discretamente em meio à chuva, com o rosto enrolado em faixas de algodão molhadas e sujas devido ao pûs das feridas que se abrem em meu rosto. Vejo em seus olhos a mesma inocência dos velhos Riodan. É uma pena que crescerão e se tornarão tão inúteis quanto sua descendência humana, poluindo a terra de outros seres, usando da água de outros seres, respirando do ar de outros seres... E ainda assim não irão respeitar ou ao menos perceber estes elementos básicos para sua existência. Seria engraçado se não fosse triste pensar não é preciso de nada para mudar o destino deles: Eles já o mudaram. Não é preciso fazer nada. Os humanos traçaram seu próprio futuro, e serão engolidos pelas circunstâncias que eles mesmos criaram sozinhos.
Eles não me interessam. Mas por eles, posso chegar ao meu alvo. Torço para que não seja muito tarde para mim.
Ando pelas ruas encharcadas e me esgueiro pelos becos desertos da cidade de Arzenoth. Meus contatos confirmaram uma operação militar e secreta de última hora, por isso os poucos soldados envolvidos. Os homens de confiança do Alto Conselho de Arzenoth devem estar a chegar com o Ark, capturado e submisso. Eu não posso deixar que ele seja levado à presença do Conselho. Não posso deixar que interroguem o Ark. Se isto acontecer, toda a busca pelo “Domo” está comprometida...
Oito homens no portão. Dez cavaleiros em corredor. Vinte arqueiros nos altos dos muros e um atalaia na torre mirando o horizonte... Finalmente me encontro em desvantagem. Os homens desta cidade são guerreiros formidáveis...
... Mas mesmo que isto custe minha vida. O Ark não entrará nesta cidade. Tenho que interceptar sua chegada e salvar o plano original antes que entre nos muros. Ele não pode e eu não o deixarei entrar nos muros.

O Atalaia dará o aviso. Até lá, a única coisa que posso fazer é esperar nestes becos frios e molhados enquanto termino meu cigarro de palha.

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