segunda-feira, 23 de setembro de 2013

A chuva e o demônio - Parte 2

A Chuva e o Demônio – Parte 2


Sento-me no canto escuro da Taverna do Chifre Vermelho, acendo meu cigarro de palha e ouço os rumores dos viajantes e plebeus embriagados, que procuram um último alento para suas vidas inúteis e perspectivas frustradas. Este é o meu trabalho em tempos de falsa paz: Observar. Observo o comportamento deles; observo figuras importantes e distintas; observo seu modo de falar, agir e cada mínimo detalhe de sua aparência. Uma coisa que aprendi vivendo na selva de pedra é que não há nada mais caro e importante do que informações, por isso memorizo mentalmente todos que merecem minha atenção. Eu nunca esqueço um rosto. Nunca esqueço os trejeitos, o modo de andar, de se vestir, as expressões faciais e corporais. Nunca esqueço...

Foi assim que conheci Gimbor, e sua equipe de seletos guerreiros: Anadon, o Elfo da estranha espada e Balbor, um humano gigante, com um machado tão pesado que era impossível imaginar como ele usava com tamanha habilidade.
Hoje não há nenhuma figura digna de interesse. Um anão rasga um pedaço de carne de cavalo enquanto a gordura escorre pela sua barba malcuidada. Dois camponeses conversam sobre a escassa safra de um vegetal qualquer devido às chuvas incessantes e o inverno prematuro. Um vendedor ambulante deixou sua carroça ao lado de fora da taverna para comprar mantimentos, provavelmente preparando-se para partir o quanto antes desta cidade ameaçada pelos quatro ventos da terra...
... Nada aconteceu nas últimas doze horas. A operação secreta foi cancelada. O Ark não chegou. Não entendo o sentido disto, mas me alegro em não precisar banhar minhas adagas em sangue. Ao menos por hoje.
 A taberneira velha e ríspida vem até minha mesa e me pergunta discretamente se desejo beber algo. As rugas de seu rosto se realçam e seus lábios se espremem. Ela tem nojo de mim. Peço um grande copo d’água e nada mais, que me sairá ao preço de uma moeda de cobre...
... Só os humanos cobram por algo que é de direito de toda criatura.
Já não me lembro totalmente do real gosto da água. Sinto o líquido da vida escorrer acidamente garganta a dentro, limpando temporariamente as feridas de minha boca e garganta, forçando-me a sentir o gosto delas. Lembro-me da primeira vez em que senti este gosto, enquanto meu corpo febril lutava para sobreviver ao veneno que corria em minhas veias. Lembro-me do balançar o velho barco e o ranger da madeira em meio à tempestade, onde viajava solitário rumo ao Exílio Eterno, o qual eu não me sentia tocado a seguir, mas sabia que se permanecesse naquele estado, o futuro, monstruoso e sádico, me tornaria a mais odiada das criaturas. As águas eram tempestuosas e eu, ainda com resquícios de minha inocência, procurava esperançosamente ver ao longe o paraíso contado nas lendas; esperava que em algum momento, a tormenta iria passar e eu veria, como tantos outros irmãos meus viram, a Terra Prometida pela Grande Deusa. A febre avançava, mortal e impiedosa, enquanto eu perdia a noção do tempo. A esperança me deixava só em meio ao nada do mar, e o Grande Oceano parecia extremamente empenhado em me dragar para seu estômago azul. Eu estava só e moribundo, tendo como única companhia minhas adagas e meu coldre, onde jazia um resto de água potável. Pensei em desistir. Pensei em me entregar ao meu destino naquela hora, e aceitar o abraço gelado do único deus que tinha atenção em mim naquele momento. Por algum motivo, eu não o fiz. Não me entreguei à maré. Minha única visão era o rosto de meus irmãos. Estranhamente, eu acreditava utopicamente e esperançosamente que encontraria eles no Exílio Eterno: Leório, Bar-Cóleron, o mestre Mermeneth e ela... Dimitri. Estranhamente, em meus delírios, todos meus irmãos me aguardavam pacientemente mas Dimitri não. Ela gritava, me impulsionava a viver, me ordenava a beber a água do coldre, me forçava a permanecer vivo mesmo doente e sozinho em meio ao infinito de água salgada. Eu tomei o resto de água para permanecer vivo. Ela escorreu a garganta acida e ferruginosamente. Como poderia eu recusar o apelo de minha irmã, a única irmã que sempre e realmente acreditou no futuro do nosso povo, mesmo não sendo um deles? Ela sempre sabia o que fazer e quais decisões tomar para ajudar o próximo, mesmo que o mundo inteiro conspirasse contra ela. Confiei em meus devaneios e hoje não sei se me arrependo ou não desta decisão.
A minha visão de meus irmãos e a vista do deserto de água foi irrompida pela visão da embarcação monstruosa que surgia em minha frente. Delirante, vi as velas negras do navio infernal estampadas nos intervalos dos relâmpagos da tempestade que me debatia para um lado e outro. Reconheci, mesmo ao longe, o odor fétido de cinzas e massa cinzenta humana... E o cheiro de morte. Cabeças negras pregadas à proa olhavam para baixo... As que ainda tinham olhos... Rostos e bocas escancaradas, recobertos de sangue e sal gritavam: “É inútil! Deixe-o afundar sozinho”. As ondas ao meu redor tingiam-se do negro e escarlate bálsamo do casco do navio, formando espumas horrivelmente tépidas, mesmo assim era possível ver o grito nos olhos da tripulação, clamando: “Mais sangue! Mais sangue!”. O casco do hediondo navio aproximou-se de meu frágil barco, já abalado pelas intempéries do mar, enquanto eu ainda duvidava de meus sentidos, e duvidava do que estava vendo à minha frente. O gigante de madeira, manchado de piche, rumou em minha direção e passou sobre mim, despedaçando meu barco enquanto eu somente esperava atônito uma resposta para todo este infortúnio que foi minha vida...
...Por que eu? Por que comigo?
Afundei desolado e sem esperanças, sob espuma e sal, encomendando minha alma em danação a qualquer deus que pudesse me ouvir. Mas o mar pareceu não aceitar minha oferenda.
No início, não me lembrava o que havia acontecido, e tudo me parecia somente um sono pesado. Ao despertar do que parecia ter sido um pesadelo, encontrei-me fraco e quase sem vida em meio a cadáveres e resto de cadáveres, já dentro do horrendo navio. A tripulação me fitava. Seus olhos eram como pedras, e não haviam sorrisos em seus lábios. Provavelmente esperavam que eu morresse. Junto aos corpos, especiarias, armas humanas, pilhagem em ouro, prata, lápis-lazúli e a figura de proa do meu barco, a Grande Mãe de braços abertos. Eles eram elfos negros. A raça mais temida por meus irmãos, as quais mantinham um pacto de guerra eterna.
Hoje eu entendo tudo. Esta é a lei deste mundo. Esta é a lei dos deuses. Após a carnificina, os abutres e gaivotas estão felizes.
Mas não naquela época. De minha parte, eu implorava para que me levassem os olhos, poupando-me de mais horrores. Sem ser entendido, só me restava chorar, por ser incapaz de tolerar minha situação. O silêncio de meus antigos inimigos mortais em meio as minhas súplicas era perturbador...
...Por fim, a tempestade havia dado trégua. Por fim, alcançamos terra firme. Por fim, a febre havia retrocedido. Por fim, minhas lágrimas haviam cessado...
Naquele dia entendi uma das maiores lições deste mundo: O que não te mata, te deixa mais forte...
...Por fim, meu infortúnio foi pequeno. Eu estava vivo, e sabia que a vida não me reservava nada pior.
Ao pisar meus pés na praia pude contemplar um espetáculo inesperado, do qual lembrarei até o último suspiro de meu ser consciente: O lugar para onde me levaram era o paraíso da Grande Deusa. Era o Exílio Eterno. Grandes árvores frutíferas se estendiam nas planícies praticamente virgens. O perfume das flores era mágico e os sons dos animais silvestres em meio a todo o matagal me faziam sentir saudades de algo que não vivi. O sol já demonstrava a intenção de despontar no horizonte. Aquilo tudo era magnífico. Não pude manter-me de pé e cai de joelhos na areia pura da praia. Perguntei-me porque estes seres indignos haviam me trazido a este lugar e, quando comecei a retomar o juízo, pude perceber que aquele lugar não era o paraíso divino, mas sim a ilha de Samtra, morada dos Elfos Negros, exilados longe de suas raízes originais. O contrates daquelas criaturas horrendas e o ambiente ao seu redor era perturbador...
... Mas aquilo não me parecia um exílio. Aquele lugar é o paraíso!
Naquele dia pude compreender que o único modo de manter o que se ama em segurança é por meio da violência. Sempre houve e sempre haverá fortes prontos para arrebatar os bens, as terras, a felicidade, o sorriso e o futuro de seu próximo, e a única maneira de se impedir isto é se tornando mais forte e mais violento que seu próximo. Esta é a verdade. Este mundo não aceita os fracos. Os fracos são pisados e subjugados, enquanto os fortes prevalecem e preservam seu legado de mais força para posteridade. Neste mundo não há lugar para inocência, não há lugar para boas ações sem aceitar nada em troca, não há lugar seguro. Naquele entendi que eu deveria ser o demônio; entendi que se eu fosse forte e violento o suficiente, ninguém mais precisaria passar pelo que eu passei, e assim meus irmãos poderiam viver em segurança em harmonia... Alguém precisava fazer isto...
Voltei até a praia e pude ver enquanto meus inimigos mortais descarregavam suas pilhagens e pareciam não se importar comigo. Não havia grilhões em minhas mãos. Eu estava livre no paraíso.
... Olhei para as pilhagens que descarregavam e tive um lapso que me levou de volta a todo o acontecido de noites atrás. O pesadelo retornava, e eu pude voltar àqueles momentos de agonia pelos quais havia passado. Um dos elfos negros, com cabelos alvos pela cintura e corpo atlético trouxe até meus pés a figura de proa...
... De súbito, lembrei-me de estar fortemente agarrado a alguém durante a tempestade. Aos meus pés, vendada por algas marinhas, jazia a figura de proa: A Grande Mãe de braços abertos. Ela era a única a sorrir na pavorosa praia. Fiz menção de afastar a tira de vegetal que cobria seus olhos pintados, mas pensei melhor e não quis que ela vislumbrasse as terríveis imagens da soturna maré. Nada mais pude fazer a seu favor, embora ela tivesse me guiado por mares de sangue, e seus seios de madeira houvessem me nutrido durante a tempestade. Seu abraço úmido me guiara para perspectivas inóspitas e me impediu de vagar para longe. Como retribuição, só pude lhe oferecer o pequeno consolo da inocência. Eu não pude amá-la tanto quanto ela me amou...

A noite cae. A cidade dorme mais uma vez. A taverna vai ficando cada vez mais vazia. Levanto-me antes do último indivíduo a sair para não levantar suspeitas. No ponto mais pobre e sujo da cidade, já existe um quarto alugado para mim. Minha governanta temporária jamais recusaria um pagamento de vinte moedas de ouro por semana por aquela espelunca caindo aos pedaços, mesmo que tivesse de alugá-la a um troll zumbi. As ruas estão desertas e o frio parece não dar trégua. Tudo normal mais uma vez.
Os portões da cidade permanecem fechados e, pelos meus cálculos, o sino da guarita gritará em alguns instantes confirmando o toque de recolher dos habitantes. O governo está prevenido e não faz mais questão de esconder isto da população.
Minha cama é um ninho de pedra, palha e um cobertor velho. Em cima da mesa esburacada de cupins repousa uma jarra de água e uma vela prestes a acabar. O lugar é repleto de infiltrações, o que torna a noite ainda mais fria. Meu travesseiro é o velho livro rasgado e remendado que tomei do Ark.
Espero que todos estejam em segurança. Espero que o plano esteja correndo como combinado. Espero que o Venon esteja vivo.

Espero não precisar aqui por muito mais tempo.

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