segunda-feira, 26 de agosto de 2013

Uma noite em Mercantia

 O Duque Orlando Krievar entrou no salão. As festividades já haviam começado a algum tempo.

Flores enfeitavam todo salão real. As mesas, decoradas com taças de cristal e topázio contrastavam com as cortinas amarelas e azuis, habituais do Grande Salão Real do Reino de Mercantia. O aroma doce que perfumava as cortinas misturava-se ao cheiro do forte vinho que era servido abastadamente. Os convidados, toda burguesia de Mercantia, com seus ricos comerciantes, senhores feudais e membros da realeza já infestavam os salões com toda diversidade de conversas. Alguns, mais exaltados por excesso de vinho...

Duque Orlando sentou-se junto aos outros nobres do reino. O excesso de vinho presente no organismo dos sentados à mesa era visível. Orlando observava os dois tronos postos à frente do Grande Salão: Em um deles estava sentado Gael II, da dinastia Raymoon , rei de Mercantia, que estivera desaparecido por alguns dias, sendo inclusive considerado morto neste período. No trono menor estava sentada a encantadora Beyerevra Raymoon, a deslumbrante princesa de Mercantia, assessorada pela “Mão do Rei”, o eunuco Abraxás.


- Eu daria meus dois olhos por uma noite com essa “princesinha”. – Comentou o obeso Conde Branior, gargalhando e oferecendo um brinde aos sentados à mesa.

Orlando franziu os olhos, deixando aparente as recentes rugas. Mesmo sendo um homem velho, tinha poucos cabelos grisalhos, um corpo robusto e rosto maduro, resultado da permanente vida militar.

- Ao futuro de Mercantia e às prostitutas de logo mais! – Brindou Branior, seguido de um pequeno “Salve” dos presentes.

Orlando também brindou timidamente.

À mesa estavam sentados as personalidades mais influentes da cidade. Além de Orlandu e Branios, Enthoriel Kethorin, Chefe das Armas de Mercantia, Conde Nestor Sul, rico comerciante e latifundiário da região, Duque Kluiver Thur, da Dinastia Dourada, um dos últimos remanescentes dos reis anteriores; O Mercador KrullFar, que importava ouro e pedras preciosas diretamente dos Reinos Rochosos, entre outras poucas figuras importantes.

A festividade havia chegado ao seu ponto alto. As mulheres dos nobres se aglomeravam em um lado do salão, deixando seus maridos mais à vontade para tratar dos negócios “dos homens”.

Em meio a futilidades rotineiras de seus negócios, a conversa parecem mudar mutuamente para o motivo em que realmente haviam se sentados juntos os nobres.

- Então Orlando... – gesticulou o “grande” Branior, fazendo-se parecer sóbrio por alguns instantes. – Eu e o Conde Nestor Sul estávamos conversando, antes de sua chegada, a respeito das futuras alianças de Mercantia com Káliot. Precisamos ser atualizados, até porque, nem todos nobres entendem os lucros que esta aliança trariam para todos os lados...

Todos os olhos da mesa focaram em Orlando Krievar...

- Já lhe disse. Não há o que planejar. O que vocês consideram “planejamento” foge da minha alçada...

Uma leve sensação de insatisfação correu toda a mesa e durou poucos segundos, logo sendo esquecida pelo efeito do vinho.

- Orlando, meu velho amigo Orlando... Sabemos que é impossível não tomarmos uma decisão...

- ... A decisão não é minha, nem posso influenciá-la. – pausou enfaticamente Orlandu, enquanto tomava um gole de vinho – Sirvo ao rei, mas não sou conselheiro dele.

- Rei? Onde está o Rei, Orlando? Onde estava o rei quando nossas terras foram atacadas por um infinito de mortos-vivos? – exaltou-se o Conde Nestor Sul, um homem sobrancelhas grossas, rosto liso, pouca altura e muitas posses ao sul de Mercantia.

- O rei estava aqui. – Retrucou calmamente Orlando.

- Estava como está ali agora? Ele mais parece um vegetal do que uma pessoa!

Orlando não retrucou. Nisto deveria concordar. O Rei Gael, que outrora era um homem forte, altivo e enérgico. Vivia no seu arém particular, participava ativamente dos negócios da região e, em outros tempos, estaria sentado junto a eles. Hoje não passava de alguém em um estado similar ao coma: Não falava uma palavra, parecia sempre introspectivo, sem contar o fato de andar sempre escorado por seus conselheiros mais íntimos...

O rei não era o mesmo. Nisto todos concordavam.

- Devo lealdade à coroa, ao rei e à princesa em...

- Você fala da puta que está prestes a vender nosso reino aos primeiros negros que aparecerem? – Atacou Nestor Sul.

Todos à mesa calaram. Orlando enrijeceu o olhar.

- Enquanto nossas terras queimam e são infestadas de mortos-vivos, os negros trocam um pequeno exército pela coroa e nossos impostos... – enfatizava Nestor, enquanto tomava fôlego para falar – Enquanto nossos “contatos” ficam cada vez mais descontentes com a situação; Enquanto o rei, que já sabíamos haver se enforcado, volta inexplicavelmente; Enquanto os “Punho de Ferro” ganham adeptos entre os NOSSOS exércitos... O que essa criança faz? É iniciada na luxúria dos Eunucos, seguindo bem os passos de sua mãe...

 Nestor Sul respirou ofegante. O semblante de Orlando estava tomado de raiva.

- Você acha que devemos ficar de braços cruzados enquanto nosso reino desmorona, Duque Orlando? Esta é sua lealdade?

- O que o conde quer dizer – remendou KrullFar – é que precisamos...

- Eu sei exatamente o que o Conde Nestor quis dizer.

Orlando sabia da verdade. Sabia que os zumbis voltariam. Sabia que o Véu Noturno, uma das maiores facções criminosas da cidade que de maneira indireta influenciava na economia da cidade estava insatisfeito. Até mesmo os “Punho de Ferro” estavam tendo crescimento notável dentro do exército de Mercantia, o que era preocupante e fugia do controle do próprio Enthoriel. A única coisa que Orlando não estava pronto para discutir, mesmo que não deixasse transparecer até o presente momento, era a princesa Beyerevra...

Haaa... A princesa Beyerevra... Como a desejava...

Orlando Krievar era apenas um comandante de duas legiões quando viu a Beyerevra pela primeira vez, na cerimônia de Consagração, quando recebeu diretamente da espada do rei o título de duque. Ela tinha somente cinco anos na época. Seus loiros cabelos trançados, rosto alvo e com pequenas sardas... Nunca imaginaria que se tornaria a mulher que hoje tanto desejava. Passara inúmeras noites em claro desenhando em sua mente seu meigo rosto fino, seus olhos cor de mel e suas curvas torneadas, imaginando aquela jovem moça em cima dele, em um leito de núpcias. Sabia que aquela cena era utópica e irracional, porém estava apaixonado ardentemente. Ele sabia dos boatos. Sabia que era uma jovem viril, nascida de uma mãe que não tivera uma vida matrimonial exemplar... Ele sabia que na flôr dor hormônios, Beyerevra provavelmente já havia sido iniciada na “Luxúria dos eunucos”. Sabia também que, em breve, para abafar os boatos e afinar a linhagem, logo o objeto de sua paixão estaria casada com algum membro das realezas vizinhas. O príncipe de Káliot era a proposta politicamente mais aceitada e discutida nos recônditos da cidade...

... Preferia morrer à cogitar esta hipótese.

Orlando era responsável militarmente por todas as terras à Norte e Noroeste de Mercantia. Ao longo de onze anos de ducado, Orlando havia se tornado influente e principalmente, uma das principais peças entre as relações entre os reinos de Káliot e Mercantia. Parecia impossível não fazer que a cidade livre de Mercantia dessa vez não fosse integrada aos reinos de Káliot...

... Parecia impossível se Orlando não amasse a jovem Beyerevra.

Orlando voltou a si. Os grandes personagens sentados à mesa continuaram conversando entusiasmadamente seus planos enquanto Orlando pensava. Para ele não importava. Em um “insight” ele já sabia o que faria à partir dali.

Levantou-se em meio aos planejamentos. Não se despediu de ninguém. Caminhou pelo grande tapete amarelo e azul até os tronos e prostrou-se em sinal de reverência e fidelidade. Um sinal que, nos tempos antigos, todos haveriam feito normalmente ao rei.

Levantou-se rapidamente e caminhou para retirar-se do recinto. Não havia feito o cumprimento para reverenciar o rei. Fez isto tão somente para olhar uma última vez o rosto da mulher que amava. Ele precisava. Ficaria muito tempo sem vê-la novamente ou, com menos sorte, nunca voltaria a vê-la.
A princesa sorriu levemente. Seu rosto inocente ficaria dali em diante fixado na mente de Orlando para o resto de sua empreitada como estímulo de coragem. Em seu íntimo, ele sabia que ela não era a devassa da qual falavam pelas tavernas pobres, ou aquela nobre administradora que obedientemente aceitaria um pedido de casamento pelo bem do reino. Ela era o anjo, a perfeição, inocência e pureza personificadas. Ela ainda era aquela menina de cabelos trançados, só que agora em corpo de mulher. A mulher pela qual largaria tudo: Sua família, suas terras, seus filhos e a lealdade a seu rei.

Os Punhos de Ferro eram sua única esperança.

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Os primeiros raios de sol transpassavam as janelas do quarto real. Pequenos gemidos de amor escapavam da fina boca da doce Beyerevra, que estava parcialmente submersa em sua banheira de água quente deixando de fora somente seus seios e joelhos, apoiando-se no mármore róseo, enquanto se contorcia em sua intimidade.

Um breve resumo da noite passara em sua mente logo após o orgasmo. Tentava lembrar dos detalhes da festa dada em homenagem à aliança comercial e militar de Mercantia. Lembrou-se vagamente do homem grisalho que à cumprimentou solenemente ao quase fim da festa.

De repente, uma cabeça careca emerge de entre suas pernas. Um face lisa, lábios grossos e respiração ofegante.

- Estive pensando... você conhece aquele homem que curvou-se a mim ao fim da festividade? –  A voz angelical de Beyerevra estava um pouco rouca.

- Sim, minha alteza. Duque Orlando Krievar, senhor das terras do Norte. Aquele é o homem que trará o príncipe de Káliot para sua cama, e a coroa de Káliot à sua cabeça. – Disse Abraxás, o eunuco da princesa e antigo conselheiro do rei.

“O príncipe de Káliot... Meu príncipe...”. Devaneou Beyerevra.

Uma breve imagem de Mercantia como capital dos reinos de Káliot passou à cabeça da princesa. Isso faria dela a mulher mais poderosa de Zolkan.

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