segunda-feira, 5 de agosto de 2013

Momento épico de Henry Chinasky

  A vitória da batalha era certa, mas a vida de Henry Chinasky não. Mesmo sendo o herói da cidade, mesmo com todo o seu prestígio por livrar-se dos Arruaceiros da Madeira, ele estava na linha de frente com mil homens mal treinados. A sua frente, o cheiro de podre embrulhava o estômago do mais forte soldado. De longe Henry encarava seu destino com esperança de sobreviver ás dezesseis legiões de zumbis. 


  Uma certeza ele tinha: a de que os soldados do Capitão dos Punhos de Ferro não seriam esquecidos. Não foi fácil para Henry estar na posição em que estava. Desde sempre levara a vida como mercenário, de trabalho em trabalho, de cidade em cidade. Um dia ele recebia dez moedas de ouro por cada ovo de kauro, no outro vendia panelas furadas. Ele não se importava... Agora, Capitão de uma legião de homens tremendo na linha de frente, apenas para morrer, ele estava certo de que faria a diferença. Tinha apenas dois dias para montar sua estratégia de guerra. Dois dias sem dormir. 



  A bandeira dos Punhos de Ferro estava erguida. O "aleijado" agora era o símbolo de esperança dos homens que estavam prontos para morrer. O discurso foi lindo, seguido de "vivas!" e "hurras!", mas o medo ainda assim pairava sobre aqueles que pouco tinham empunhado uma espada.





  Os zumbis avançavam com todo o tripo de criaturas mortas e putrefatas. Orcs, ogros, trolls, homens, mulheres, beemotes... Tudo que o Mestre zumbi havia encontrado de morto ele havia tomado para si. Tudo que havia de vivo, ele havia matado para tomar para si. Foram dias andando pelas Terras Famintas animando toda criatura que aparecesse a sua frente. Dois corações ele tinha, que era de onde vinha tal poder. Um deles era o do maldito, do profano... O coração de Vecna.



  Certamente estava bem atrás dos milhares de zumbis, pois mesmo depois de grande parte de homens e zumbis caídos, ninguém ainda havia o visto. Henry continuava em pé e confiante junto com o que restara de seus homens, que a essa altura já estavam felizes por terem sobrevivido a primeira bateria de zumbis. Se não fosse por Henry, isso nunca teria acontecido. 



  A batalha foi difícil. O mal cheiro prejudicava não só ao nariz dos guerreiros, mas deixava a todos enjoados. O Capitão Henry Punhos de Ferro já tinha visto milhares caírem. Estava cansado, mas determinado a fazer a diferença no meio daquilo tudo.



  Agora, o cheiro de podre se misturava com o de sangue. Mercantia havia conseguido espantar o grande exército de mortos vivos, e Henry continuava de pé. A cavalaria da cidade brilhante recuava junto aos outros soldados, satisfeitos com o resultado. Henry olhava tudo abismado: "Como podem recuar se o Mestre Zumbi continua intacto?". Ele não se deixou vencer: chamou pelos Punhos de Ferro e desafiou o destino quando com noventa homens decidiu ir contra nove legiões. Mas o destino tem um humor distinto e irônico e sorriu para Henry Chinasky nesse momento. O Comandante da cavalaria de Flaerún, reino vizinho que apoiava Mercantia, viu a glória nos olhos de Henry, e desejou isso. Juntos eram quatrocentos loucos que cavalgavam para a morte. 



  O plano seria perfeito, se não fosse suicida. Enfrentariam os zumbis no estreito, tendo como foco o Mestre deles. Era linda a visão dos cavalos correndo no meio daquela infinidade de zumbis. Mas como eu disse, o destino tem um senso de humor incompreendível. Foi quando o cavalo de Henry foi atingido. Caiu Henry e caiu o cavaleiro de Flaerún. Eram agora apenas dois homens em meio a milhares de putrefatos. O resto da tropa de cavaleiros mal podia ser visto entre a multidão. O incrédulo Henry pedia um sinal dos deuses em troca de devoção, mas talvez, no meio de tantos gemidos, gritos, e tintilar de espadas, os deuses não pudessem vê-los ou ouví-los. Um troll com partes de carne faltando arremessou o Capitão para mais longe de sua tropa. Mas Henry era forte. Levantou-se e procurou pelo Mestre, que agora já podia ser identificado no meio de um globo de zumbis que o protegia. 



  Varrendo aquele bando de amaldiçoados, Henry conseguiu se aproximar do globo. "Heis aqui minha vitória, tão próxima...", ele deve ter pensado. Tão próxima, e tão distante ao mesmo tempo. Essa era a hora do tudo ou nada. Vitória ou morte certa. O destino de Henry estava sendo escrito agora com tinta sangue, bastava saber se seria com o sangue dele ou dos inimigos.



  Eram dez cavaleiros, Henry, seu escudeiro e o Capitão de Flaerún contra centenas de zumbis que protegiam o Mestre. Vencer a centena deles era só um dos degraus da escada de sua glória, mas ele já não sentia mais medo e atacava aos zumbis com sua vida. As legiões de zumbis ao seu redor o estavam cercando cada vez mais, e a única porta para sair dali estava escondido no globo de zumbis. O tempo era curto, os últimos grãos de areia escorregavam na ampulheta de Chronos, que ria da audácia de um aleijado com um braço mecânico. Henry já sentia a morte ao seu lado, e ele soube entender. Não teve medo, não lutou contra. Ele já tinha a glória de que precisava, sabia que a legião dos Punhos de Ferro jamais seria esquecida. 



  Ele fez seu último movimento. Subiu no globo, escalando os zumbis, e com toda sua força, afundou sua espada no globo, tentando acertar o Mestre, que nem foi tocado. A morte olhou nos olhos de Henry, e o abraçou com sutileza.



  A história de Henry Chinasky, o Capitão da legião dos Punhos de Ferro acabaria aqui. Chronos estava satisfeito, a morte também, mas Henry não. 



  Quando abriu os olhos, via apenas homens e zumbis caídos em batalha. Se assustou, seu pensamento estava turvo e ele correu. Ele não sabia para onde estava indo, não sabia porque estava correndo, mas sabia que era o certo a ser feito. Correu tanto, mas não sabia quanto, nem quanto tempo. Só parou quando viu, ao longe o grande exército de zumbis a sua frente, que havia retrocedido. Ele se aproximou cada vez mais, e andou sem problemas por entre aqueles que havia lutado. De longe já pode avistar uma grande plataforma suspensa por vários zumbis. Sentado encima da plataforma, Henry pode ver o Mestre, por quem agora sentia apenas grande vontade de servir. Aquele ogro gordo não fora tocado pela sua fúria. Henry não podia sentir. Não sentia nada, a não ser que já não era mais o mesmo. Henry agora seria um deles e nada mais podia ser feito para reverter as consequência de tal audácia. Mas Henry não podia aceitar isso. Precisava fazer algo. Ele sabia que algo estava errado. Aquela vontade de defender o Mestre zumbi não era dele. Ele sabia que precisava fazer o contrário. Era difícil pensar, mas sua vida passou como um filme em sua cabeça, e ele queria viver mais. Ele não era um zumbi, ele era Henry Chinasky, e não tinha caminhado tanto para chegar ali e depois desistir. Tudo que ele tinha estava ali. Ele precisava atacar o ogro obeso, mas mesmo com sua espada na mão, ele não se sentia capaz. Respirou fundo, tentou se concentrar e fez. Como ele fez, nem mesmo ele sabe. Mas quando se deu conta, sua espada estava cravada no coração do ogro.



  Os outros zumbis pararam, como se levassem um choque. Não o atacaram, apenas começaram a gemer, se lamentando como crianças. Henry rasgou o peito do ogro maldito e pode ver dois corações: um ferido com a espada, e outro ressequido. Ele pegou o coração seco na mão e sabia de quem era. Agora ele precisava destruir o coração do Profano. Mas aquele coração parecia tão bendito. Segurar ele na mão lhe dava uma segurança tão plena. Ele amava aquele coração, que quando posto sob seu peito parecia até bater. Mas ele sabia que não podia se render aos encantos do coração. Ele tentou golpear o coração com a espada, mas era realmente incapaz de ferir um coração tão lindo. Ele pegou o coração novamente, e desesperado e confuso, tentou morder o coração para destruí-lo. Mas fazer aquilo lhe deixava tão triste, tão magoado...



  Henry se ajoelhou perante ao coração entre os zumbis que ainda se lamentavam. O suor da batalha se misturava com o sangue de sua roupa. O cheiro, de tão forte já não podia mais ser definido de quê. Henry dava murros no coração, mas sentia-se mal por isso. Ele já não podia mais aguentar esse tormento, e ele sabia o que tinha de fazer. Sem forças para lutar, Henry cedeu. Rasgou o próprio peito e dentro guardou o coração, que parecia criar raízes e se encaixar perfeitamente dentro dele. Os zumbis se levantaram  e pararam de se lamentar. Olharam para Henry como se esperassem alguma ordem ou vontade de Henry. 



  Ele gritou aos zumbis: "Algum de vocês sente que não deveria estar aqui?". Os zumbis olharam sem entender nada, mesmo porque não seria isso possível. Henry entendeu o que deveria fazer e disse: "Então, todos vocês agora são livres para pensar. Se um de vocês não quiser estar aqui assim, venha até mim, e minha espada o livrará de seu tormento!"



  E foi assim que Henry Chinasky, o Capitão dos Punhos de Ferro driblou a morte.

O final dessa guerra poucos sabem. 


 O herói de Mercantia agora está perdido, mas a cidade esta a salva. 


... por enquanto.



  Dele só restara lendas e canções sobre a sua legião e sua coragem.

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