segunda-feira, 26 de agosto de 2013

Expiação

Um respiro rouco, ofegante, quase inaudível escapou do corpo robusto completamente ensanguentado, pendurado de forma crucífera fortes correntes de prata.
O homem negro usava um longo manto, que outrora fora branco e agora estava salpicado de sangue. Ele agora em frente à mesa de ferro, de costas ao corpo pendurado, escolhendo sua próxima ferramenta de tortura. Ao canto do recinto havia um forno onde já queimava algo.
- Então... Vamos começar pelo início novamente. Onde ele está? – Disse serenamente o paladino de Fláerun.
- Eu já disse que não sei... – O torturado fez uma pausa para cuspir uma grande quantidade de sangue – E mesmo que soubesse, não diria nunca.
- Eu entendo e valorizo sua lealdade. – Disse o paladino, que esquentava uma haste de ferro no forno que crepitava – Porém, você fracassou em sua missão! Será punido com a morte da mesma forma. O que eu lhe ofereço é uma chance: Uma pequena chance de escapar com vida desta situação... Fláerun é misericordioso!
 Krogan ficou calado. Sua devoção era maior que sua razão.

- Venon! Eu lhe faço a mesma proposta que lhe fiz no início, com um adendo – disse o homem negro, aproximando a haste de ferro em brasa ao rosto de Krogan – Você me diz onde Vecna está escondido, ou me diz para onde ele estava se dirigindo, e eu lhe darei anistia dentro de alguns meses. Tem minha promessa.
- Dane-se sua anistia!
O ferro quente atravessou o ombro de Krogan. Ele gritou abafado, quase sem força.
- Você não entende o que estou fazendo por você? – sussurrou o paladino no ouvido do que um dia havia sido um elfo – Você é uma aberração! Você é um Venon! E eu ainda estou negociando com você. O “Profano” já teria lhe arrancado a cabeça por ter colocado sua filha em risco...
- Você não sabe de absolutamente nada. – interrompeu Krogan, quase sem fôlego.
- ... E ela já está conosco. Sabe qual o próximo passo? Interrogá-la também desta forma. Ao menos, ela tem a mente mais aberta que a sua, se é que me entende.
- Vocês ainda não a torturaram?
- Esperamos que isto não venha a acontecer. Percebe? Não existe escapatória. Ao menos conte-me o que preciso, e poupe-a deste sacrifício.
Krogan tossiu ou riu. Logo depois encarou o paladino. Seus olhos, completamente vermelhos e sem vida, ganharam uma coloração um pouco mais viva.
- Ela ainda está viva? – disse Krogan, enrijecendo os músculos, deixando o sangue escorrer ainda mais.
- Meus superiores entendem que ela é mais valiosa viva. – Enfatizou o paladino. – Se dependesse de mim, ela estaria agora, na mesma condição que você.    
Krogan gargalhou. Parecia aliviado.
- Do que está rindo, Venon maldito? – Disse o paladino, ironicamente – Você gostou de saber que sua princesa está feita prisioneira?
- Agora entendo tudo. Minha missão está cumprida.
O ferro quente atravessou a virilha de Krogan, fazendo seu corpo enrijecer por completo em um só espasmo. Incrivelmente, Krogan ria enquanto espasmava de dor.
- Estou começando a perder a paciência. – Disse o paladino.
- Vamos logo com isso, seu frustrado! – esbravejou Krogan – Vamos, enfie este ferro em meu peito! Você não pode tocar nela! Vocês precisam dela!
- ONDE ELE ESTÁ? PARA ONDE ELE ESTÁ INDO? – gritava o paladino, com o ferro próximo ao rosto de Krogan.
- Você sabe que ele procura algo muito maior! Você sabe existem forças maiores que vocês! Vocês estão protegendo-a para ele!
- ONDE ELE ESTÁ? – O ferro já tocava o rosto.
- Você trabalha para ele! Seu mestre está fazendo o que meu mestre quer que ele faça! Ele vi...
O ferro em brasa atravessou-lhe a barriga, de cima para baixo, impedindo-o de concluir. Krogan podia sentir aquilo queimando próximo ao seu coração que esforçadamente tentava inutilmente bombear sangue.
- Ele virá busca-la! – dizia Krogan, enquanto a vida escapava-lhe do corpo – Ele irá infestar esta cidade com sangue, dor e morte... e você será seu escravo na eternidade...
- ONDE ELE ESTÁ? – Gritou em desespero o paladino de Fláerun, sabendo que estava a somente um passo de entender completamente os planos de seu inimigo.
- E...Ele...
- DIGA! VAMOS, DIGA!
- Ele sabe quem você é, Evig....– desfaleceu Krogan.
O paladino, num acesso de fúria, espetou diversas vezes o corpo de Krogan, terminando por enfiar o arpão em um de seus olhos. O arpão varou-lhe a cabeça, fazendo o corpo inclinar-se para trás.
No rosto de Krogan pairava um sorriso de paz.
No rosto de Evigor, o Inquisitor, pairava um misto de espanto e terror. “Ele sabe quem é você, Evigor”.
“Ele sabia meu nome... Como isso é possível!” ... gritava o pensamento do paladino.





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